Problemas com os 10 argumentos contra a Astrologia

Posted on 15 de dezembro de 2006

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Recentemente coloquei de memória uma lista antiga de 10 argumentos contra a Astrologia que apareceram algumas décadas atrás na revista Superinteressante. Principalmente para iniciantes eu acho que podem causar algumas dúvidas e confusoes, e, obviamente, as pessoas esperam entao por uma listagem de 10 explicaçoes astrológicas contrárias. Mas infelizmente nao é o que pretendo fazer.

Uma noçao, demasiado banalizada no mundo banal de hoje, é a de paradigma. Qualquer idiota hoje em dia que escreve um livro de auto-ajuda adora quebrar ou romper um paradigma… ninguém se preocupa em queimar-los ou talvez dobrar-los, é sempre quebrar… A visao administrativa de paradigma é dada por nosso amigo Dilbert.

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Falando seriamente, um paradigma, pode ser entendido simplificadamente como a visao de mundo que um determinado grupo de cientistas têm sobre o que é a ciência, como ela funciona, e quais sao os critérios de algo ser científico ou “verdadeiro”. Alguns paradigmas “substituem” outros, mas muitas vezes os paradigmas “convivem”. E, se há alguma coisa que a história nos mostra, é que duas pessoas falando de paradigmas diferentes é o típico “diálogo de surdo e mudo”. Óbvio… temos duas pessoas falando a partir de critérios e visoes diferentes, entao nao existe um critério neutro, o que tornar tudo uma grande perda de tempo.

Aqui no nosso caso, qual a importância de discutir os 10 argumentos contra a Astrologia ? Nenhuma. Mais pessoas acreditam em astrologia do que nao acreditam. A única coisa que eu estaria dizendo é que a Astrologia necessita ser “provada”, que precisa ser defendida, coisa que nao acredito.

Por isso, acho muito mais interessante analisar o conjunto de premissas e bases dos argumentos utilizados (você nao achava que o nome do blog era a tóa, nao é ?). Desse modo estamos nos colocando de “fora” das briguinhas, das concepçoes de “verdades absolutas”, e estamos sim analisando falácias e redes argumentativas.

Antes que esse post fique gigantesco, vamos por maos à obra.

  1. Se plutao (ou outro planeta) afeta o bebê no nascimento, porque o médico, que está muito mais próximo, nao afeta o indivíduo de maneira muito mais profunda ?
  2. Se esse planeta afeta o bebê, porque a influência nao depende da distância ? Planetas como plutao variam enormemente na distância até a Terra ao longo do ano.
  3. Por que outros corpos, como os satélites de televisao, nao influenciam no horóscopo ? Eles podem ser muito menores que os planetas mas estao muito mais próximos.

Pode-se ver facilmente que os 3 argumentos anteriores sao versoes do mesmo argumento, que é conhecido na física como o problema da açao à distância. Desde Newton, toda forma de açao que exerce algum efeito à distância foi substituído pelos constructos “força” ou “campo”. Podemos encontrar aqui a seguinte premissa: se existe um efeito, ele deve necessariamente ser resultado de alguma força. Se existe uma força, ela deve variar com a distância, e todos os corpos que possuem a mesma natureza devem exercer essa força.

O primeiro problema que temos é a proposiçao de que a astrologia funciona por forças. Quem foi que disse isso ? Nao foi a astrologia ! Muito menos que a força em questao é a gravitacional ! Aqui temos uma forma muito grande de desonestidade intelectual, que é interpretar um conhecimento como falso a partir de afirmaçoes que nao fazem parte do conhecimento. Parecido com um radicalista dizer que “a sociologia é falsa, pois diz que todas os criminosos deviam ser libertados da cadeia”. Bem, o problema é que a sociologia NAO diz isso, e do mesmo jeito a astrologia nao diz que a gravidade explique os fenômenos astrológicos !

O argumento número 3, principalmente, deve ser ignorado, pois é uma técnica de sofisma chamado “reduçao ao ridículo”. Boa para políticos, mas mostra falta de transparência intelectual.

4 Por que a data importante é o nascimento e nao a concepcao ?

5 Se o útero “protege” a criança da influência astrológica, seria possível proteger um adulto dessas influências usando um grande pedaço de bife ?

O problema da pergunta 4 é que desconsidera que escolher o momento do nascimento é um problema de método e nao de validade de conhecimento. Por exemplo, pode haver algum astrólogo no mundo que prefira o momento do batismo ! Questao de método e de gosto ! Há uma técnica chamada trutina de hermes que utiliza o horário de concepçao “calculado”. De resto, os motivos de se escolher um método devem ser discutidos dentro da própria disciplina, mas nao sao válidos para se discutir fora dela. Por exemplo, porque se utiliza a expansao do mercúrio como instrumento de mediçao da temperatura ? Como se definiu a unidade Volt ? Como se criou a escala de QI ? Mas nenhum desses problemas técnicos faz com que as disciplinas sejam falsas.

A questao 5 mostra que, para entender a questao 4, temos que ler o que ela nao diz, mas deixa implicito como premissa: de que se existe uma influência astrológica, ela deveria afetar o feto antes mesmo do nascimento. Em primeiro lugar, como já dissemos, nenhum astrólogo disse que existe influência gravitacional. Em segundo, quem disse que é necessário que, mesmo havendo influência, que ela afete o feto ? Por exemplo, existe a crença de que tocar Mozart para o feto auxilia sua inteligência, o que necessita comprovaçao experimental. Por que, para uma influência que foi postulada e é desconhecida, se toma como óbvio que ela influência antes do nascimento ? A resposta é mais uma tática de “reduçao ao ridículo” quando se utiliza o artifício do pedaço de carne para ridicularizar a argumentaçao do adversário.

Como as pessoas preferem posts curtos, paro por aqui, amanha continuamos.

Traducao de Dilbert

Meu projeto é um novo paradigma.

Que é um paradigma ?

Heheheheh…. “o que é um paradigma”… que engraçado…

Sério, o que é paradigma ?

Você sabe… paradigma… paradigmático…

Tipo “meu projeto é um paradigma”

Mas chega de falar sobre o meu projeto… nos conte um pouco sobre o seu projeto.

Meu projeto é um paradigma.

Meu projeto também é um paradigma.

Sussurando – Eles compraram a idéia !