A tecnica dos transitos

Posted on 8 de fevereiro de 2007

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tecnica dos transitos

Falta técnica na técnica dos trânsitos astrológicos ?

Na primeira parte discutimos a natureza dos trânsitos astrológicos, ou como os planetas, aspectando o mapa astral, podem ser usados pela Astrologia como modelo de previsão para acontecimentos futuros. Mas ficou a dúvida: a impossibilidade de prever com exatidão usando essa técnica é devido a natureza do livre arbítrio e do universo simbólico, ou é simplesmente devido à insuficiências na técnica ?

Quando entrei em administração, a piada mais típica do primeiro ano era o famoso “depende”. Em administração, os professores respondem a 90% das perguntas com “depende”: “Professor, uma campanha agressiva dá melhor resultados que uma discreta ?”. Depende. Depende do quê ? Depende de inúmeros fatores teóricos conhecidos, como marca da empresa, meio de comunicação, cultura do país… e também depende de variáveis que não sabemos quais são !

Tinha um professor que dizia “sim, tudo depende… mas o importante é saber depende do quê!” Saber “do que depende” implica saber analisar as relações da teoria. Mas, como toda teoria é incompleta, temos que admitir que tem um nível de “depende”, um nível de modulação do resultado que não temos explicação teórica digna. O mesmo vale para os trânsitos… deveríamos observar com cuidado todos os fatores teóricos conhecidos antes de começar a discutir os desconhecidos !
Os trânsitos nem sempre cumprem o que prometem

Tem muita gente que jura de pé junto que o trânsito é a melhor técnica astrológica, mas isso é quando você está preocupado com previsões do tipo “em janeiro você estará expansivo e alegre, buscando novos horizontes e desafios”. Mas se você está preocupado em ver assuntos de casamento, morte, etc, eles podem ser muito confusos: às vezes acontece muita coisa na vida das pessoas e nada nos trânsitos ou vice-versa. Isso deve ser lembrado pelas pessoas que morrem de medo quando descobrem que tem aquele trânsito de plutão que vai passar pelo seu ascendente… muitos dos trânsitos mais temidos passam como uma brisa de primavera pelos mapas astrais das pessoas. Alguns dos momentos mais desastrosos da vida de uma pessoa acontecem sem trânsitos visíveis, ou pelo menos sem nenhum em seu ponto máximo.

Quais são as possíveis explicações para isso, fora jogar a culpa no “livre arbítrio” e que “essa pessoa estava espiritualizada, por isso representou o trânsito de uma forma positiva” ? Eu diria que algumas importantes são:

  • A dignidade do planeta transitando
  • A angularidade natal do planeta transitando
  • Contextualidade
  • A teoria do “gatilho”

A dignidade não importa ?

No que tenho observado do trabalho de astrólogos modernos, pouquíssimos usam sequer as dignidades maiores para “modular” o efeito dos trânsitos. Deveria ser lógico que um planeta que recebe um aspecto de Júpiter em câncer (onde está exaltado) deveria ter efeitos muito diferentes do que um aspecto de júpiter em virgem (onde está exilado).

Além da dignidade, existe várias outras considerações que afetariam a qualidade do evento previsto. O planeta transitando ou transitado está em seu séquito ? Existe recepção (um conceito de astrologia que indica a afinidade entre dois planetas) ? Esses planetas, natalmente, regem ou estão em casas boas ou más ?

Será que um retorno de saturno, que é citado em 100% dos manuais de introdução à astrologia como sinônimo de crise dos 30 anos, crise da maturidade, responsabilidades e o peso delas, etc, terá o mesmo efeito para esses dois saturnos ?

  1. Saturno em câncer, na casa 8 (morte), regente da casa 6 (doenças) e 7 (inimigos)
  2. Saturno em câncer na casa 5 (ganhos), regente da 9 (sabedoria) e 10 (carreira)

A angularidade não importa ?

Não deveríamos supor que planetas que estão natalmente em ângulos, tenham trânsitos mais significativos do que outros cadentes ? Então, eu que tenho júpiter na casa 1 teria muito mais suscetibilidade aos trânsitos desse planeta do que alguém que tivesse júpiter na casa 12 (cadente).

Podemos especular outras possibilidades que aumentariam o efeito quantitativo dos trânsitos: por exemplo, se tenho um trígono de júpiter com vênus, qualquer trânsito que envolva esses planetas seria sentido mais fortemente que o normal ? Morin dá a entender que sim, e que mesmo planetas transitando sobre pontos diferentes, mas com significados análogos, se reforçam mutuamente.

O problema da contextualidade

Antes de discutirmos se algumas pessoas são mais espiritualizadas do que outras (conceito com o qual tenho problemas, já que nunca encontrei uma pessoa que se considerasse mais espiritualizada que os demais que eu não considerasse arrogante e tola), e que assim podem sobreviver aos trânsitos diferente do resto de nós, pobres mortais, temos que pensar que a interpretação dos trânsitos é extremamente relativa ao contexto da pessoa.

Por exemplo, quando comentei o trânsito de marte durante minhas férias, eu mencionei o problema de que o trânsito sobre o meu marte na casa 3 das viagens não determinou que eu estivesse viajando. Quem determinou isso foi a tradição das férias, que faz com que muitas pessoas só possam sair do trabalho em janeiro.

Vamos pensar nesse problema do contexto. O trânsito negativo sobre a casa 3 pode afetar os seguintes temas: viagens, estudos, irmãos. Como o trânsito representa uma influência momentânea, melhor do que a sugestão do Robert Hand de eu fazer uma mini representação de Caim e Abel, poderiamos notar que:

  • se não fosse janeiro, eu não teria viajado, e em casa o efeito do trânsito seria muito menor, provavelmente imperceptível.
  • Moro a 10 mil km de distância de qualquer um dos meus irmãos, tornando a possibilidade de discussões e brigas bem próximo de zero.
  • Não tenho carro e dificilmente poderia me envolver num acidente de trânsito, já que o trânsito ocorre sobre mim e não sobre o motorista do ônibus.

Do mesmo modo, em nossa cultura, nenhum trânsito vai causar problemas conjugais a uma criança de dois anos. Se uma pessoa sobrevive financeiramente graças ao conjugê ou aos pais, trânsitos negativos na casa do dinheiro devem causar efeitos muito menores (ou nenhum) do que de uma pessoa que vive com apenas com seu dinheiro, e tem renda variável.

A teoria do “gatilho”

A teoria do gatilho vêm ganhando terreno atualmente. Seria mais ou menos assim: os eventos realmente importantes na vida das pessoas devem ser buscados em outros fatores de longo prazo, como as direções primárias e as progressões, e os trânsitos servem apenas para ativar a direção ou progressão. Assim a “bala” já estaria no gatilho, e tudo que o trânsito faz é disparar.

Morin faz uma teoria pararela: devemos também considerar os trânsitos à Revolução Solar como fatores para ativar o significado da RS.

Na astrologia da India, chamada de védica ou jyiotish, os trânsitos são realmente uma ferramenta muito utilizada, e não apenas para previsões genéricas, como aqui no ocidente, mas para se fazer previsões concretas. Nos testes do astrólogo Dymock Brose, os astrólogos védicos ganham de longe dos ocidentais ! E olha que a maioria deles não usa os geracionais, urano, netuno e plutão !

Há algumas diferenças que valem ser discutidas com mais profundidade depois, mas resumidamente, os jyiotish dividem a vida da pessoa em períodos regidos por planetas, as Dashas (muito parecido com o conceito ocidental de firdaria) . Os trânsitos acontecem a toda hora… pra ele realmente apontar pra um evento importante na vida da pessoa, ele deve estar vinculado com o planeta que tem domínio sobre a dasha que a pessoa está vivendo. Assim, novamente o trânsito “ativaria” algum fator do mapa.

Como melhorar nossas técnicas ?

Eu escrevo sobre um viés, que é o de valorizar a astrologia preditiva, mas sempre faço questão de deixar isso claro. Acredito que a astrologia nasceu para isso, e não para fazer especulações new age sobre a reencarnação, para servir de ferramenta de narcisismo pessoal ou instrumento de discussões pseudo-filosóficas e pretensiosas.

Não acredito que o trânsito devesse estar como a técnica “número 1” dos astrólogos, mas já vi exemplos de como ela pode ser muito útil para previsão. E já vi exemplos de como ela pode se tornar totalmente inútil, apenas dando declarações vagas, com o objetivo de não prever absolutamente nada: afinal de contas, prever coisas concretas, como descobriu o criador da astrologia moderna, Alan Leo, é perigoso, pois pode dar processo !

Não podemos prever tudo na vida, obviamente. Não estou negando o livre-arbítrio. O que nego é a utilização desse conceito como terminologia “new age”, que legitima que o astrólogo erre suas previsões, sem se preocupar em revisar suas técnicas. Reveja o artigo sobre a Águia e a Cotovia: Se não temos definido critérios para saber se o que errou foi a águia ou a cotovia, é impossível desenvolver a sua capacidade de previsão. Note que todas essas considerações estão aí faz tempo, nos fóruns de astrologia, que se perguntam “porque esse trâsito não deu resultado, ou deu esse resulado estranho ?”.

Mas, aprimorar a técnica dos trànsitos planetários, usando as considerações acima e outras, ainda estou pra ver. O que eu mais vejo é: “fulano estava com o trânsito de plutão sobre a lua, mas se não aconteceu nada, é porque ele deve ter descoberto como lidar com o simbolismo de maneira construtiva”.

Essa pode até ser realmente a resposta correta, mas só deveriamos tentar usá-la depois de esgotadas as alternativas, e não como primeira alternativa !

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