Astrologia Moderna x Tradicional

Posted on 11 de abril de 2007

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Steven Birchfield é um dos melhores astrólogos que conheço. Com um conhecimento teórico enciclopédico, de saber as passagens de centenas de livros complexos de cor, e com um conhecimento prático fantástico, que beira o mediúnico, ele é uma pessoa muito generosa e me permitiu traduzir um texto dele para colocar no Blog.

Nesse texto, Steven rebate alguns argumentos usados pelos defensores da astrologia moderna, como que a astrologia tradicional é “fatalista” e a astrologia moderna “ajuda o desenvolvimento espiritual” do ser humano. Eu dividi o texto em “temas” pra facilitar a organização da leitura.

Espero que gostem tanto quanto eu, ele é editado de uma discussão. Steven é americano, já foi missionário religioso em vários países do terceiro mundo, inclusive no Brasil, e até hoje ajuda a sustentar um orfanato craido em Salinas. É engenheiro e hoje mora na Noruega. Traduziu alguns trabalhos do Project Hindsight, se eu não me engano foi On Solar Revolutions, do árabe Abu mashar, a partir do texto em Latim.

Se tudo está pretedeterminado na carta astral, e você não pode fazer nada a respeito para mudá-la, por que se importar em estudar astrologia ?

Primeiro, vamos deixar claro que ninguém disse que tudo estava pré-determinado. As pessoas pensam que conhecimento antecipado é a mesma coisa que predestinação. Muitos que nunca dedicaram realmente tempo para estudar o que os antigos ensinavam, aparentemente pensam que a astrologia tradicional é um meio de descobrir qual a cor das meias que eu vou usar amanhã. Não é assim.

As casas astrológicas eram os “acidentes” ou circunstâncias que são comuns para TODAS as pessoas. A Bíblia diz simplesmente: “Não há tentação que te corrompa como aquela que é comum a todos os homens”[1]

Quais são essas circunstâncias e como elas se manifestam para cada indivíduo é o que torna única a vida de cada um. Todos temos escolhas dentro de limitações. Eu posso escolher o que vou fazer com a minha sorte ou com meu azar. Eu posso contar em uma mão o número de cartas que eu analisei que indicam pouca adversidade. Não existe ninguém nesse mundo que não enfrentará adversidade, transtornos e problemas em algum grau. Todos temos Marte e Saturno em nossas cartas. Todos temos os benéficos em nossas cartas.

Existe em cada pessoa as possibilidades de fortuna e infortúnios. Conhecimento sobre esses dois, antes que eles venham, não muda as circunstâncias quando eles aparecem. Mas o conhecimento prepara a pessoa para o que pode ser feito a respeito.

Em 2004, se as pessoas soubessem que um Tsunami se aproximava, obviamente elas teriam fugido de seu caminho ! O Aviso não mudaria o evento ou sua natureza, e as pessoas ainda assim teriam perdido suas casas e posses, mas não teriam perdido suas vidas.

Onde existe vida, existe oportunidade e esperança.

Eu não posso impedir os passáros de voar sobre minha cabeça, mas eu posso impedir que eles façam um ninho no meu cabelo.
Em 1999, Eu sabia que eu teria sérios problemas de saúde no futuro próximo, e que eles me colocariam numa situação onde eu não poderia trabalhar novamente. Assim, eu fiz um seguro da hipoteca, de maneira que minha familia não ficasse com dívidas. Se eu não tivesse feito isso na época, hoje teria sido impossível, porque eles não fazem seguro de pessoas com os meus problemas ! [Steven tinha um grave problema de costas do qual está parcialmente recuperado]

Sabendo que tempos difíceis estavam vindo, nós todos fizemos um esforço concentrado para economizar dinheiro e reduzir as despesas. Eu estava com boa saúde nessa época. Eu previ as circunstâncias específicas, eu sabia que eu teria problemas, muito provavelmente com as minhas costas. Saber que circunstâncias estavam chegando não as mudou. Eu não tinha possibilidade de escolha nesse sentido.

Mas eu tive a oportunidade de tomar decisões baseadas nesse conhecimento, decisões que me ajudaram a amenizar as circunstâncias. Estar avisado é estar preparado !

De que vale determinar que alguém nunca terá sucesso ou está condenado uma existência miserável ?

A Vida !… é algo que vale a pena viver, independendo de nossas definições de “existência miserável”. Qual é a definição “correta” de sucesso ou fracasso ? A maioria dos ocidentais que eu conheço são as pessoas mais infelizes e miseráveis que já encontrei na vida, e eu vivi na África, Oriente Médio, India, Afeganistão, Bangladesh, por toda a Europa e na antiga União Soviética. Eu vivi, e trabalhei ajudando, no meio das piores tragédias e sofrimentos imagináveis. A Bíblia ensina que “se tiver comida e roupas para se cobrir, esteja contente”. Eu lido com clientes diariamente; pessoas com problemas reais, e dizer a eles que se eles deveriam entrar em contato com algum “potencial mágico” [como a astrologia moderna faz] não os ajuda a lidar com as situações que enfrentam e tomar boas decisões.

Os três pilares da astrologia moderna

Antes de eu começar a estudar astrologia tradicional, eu passei 20 anos estudando astrologia moderna. Eu fui treinado com astrólogos como Liz Greene e
Howard Sasportas pouco antes de sua morte. Por isso eu digo que sei muito bem o que a astrologia moderna realmente ensina.

Todos na civilização ocidental ouvem, dia após dia, o que fará com que elas sejam felizes, e isso dito por pessoas que tem apenas um interesse… fazer com que elas próprias sejam felizes. Elas pregam o que elas praticam e é ensinado que se todo mundo praticar esse credo, todos serão felizes.

Nesse ponto necessitamos parar e examinar os pilares da astrologia moderna: auto-conhecimento, auto-estima e auto-valor. Na sociedade de hoje esses valores são tão automaticamente aceitos que é como discordar da proposição “bebês são bonitinhos”. Mesmo assim, essas idéias exigem uma análise mais aprofundada, porque idéias, como jogos de cozinha, em geral vêm em conjuntos, e algumas das noções que acompanham nossa “fé” em auto-conhecimento não são tão charmosas e bonitinhas quanto bebêzinhos.

Uma das soluções mais aceitas e comuns entre a comunidade astrológica é que através do auto-conhecimento nós vamos entender a nós mesmos e aos outros e que isso resulta em auto-estima e um sentido de auto-valor, o que nos leva automaticamente a ter sucesso. Afinal de contas “é importante gostar de você mesmo” e “se você não gostar de você mesmo, ninguém vai”. De acordo com essa visão de mundo, pessoas que descobrem seu auto-valor e se elevam a um “nível superior de consciência” não precisam mais lidar com coisas feias ou desagradáveis, e por isso mesmo essas coisas não acontecerão mais para elas [Yuzuru: apenas para nós, pobres mortais não evoluídos na escala cósmica].

A sociedade do “eu me amo”

Por favor, note que eu não estou sugerindo que “sentir-se bem sobre si mesmo” é algo mal em si mesmo. Ou que você deveria passar o dia chorando e se martirizando. Uma atitude mental positiva pode trazer forças que não sabíamos que tínhamos, mas também não pode realizar milagres. Se eu tenho 5 dólares no meu bolso, apenas ficar imaginando que eu tenho mais não fará com que eu compre um iate. É necessário senso de negócios, oportunidade e trabalho para se converter os cinco dólares em quinhentos mil dólares.

Imaginar que temos um místico senso de negócios quando na realidade não o temos não ajuda. Mas não acaba aqui, e é muito pior quando esses mesmos gurus sugerem que, como nós determinamos a realidade apenas nossa própria vontade individual, que nós não necessitamos mais de religião, comunidade, tradição e família. Nós somos Deus, e tudo que é necessário é achar o deus dentro de nós. A idéia de que só precisamos de nosso próprio amor, e de ninguém mais, é uma ficção perigosa que cria um excesso de individualismo e tem como resultado os índices de suicídio, divórcio, solidão e depressão comuns em nossa sociedade.

A base para o “auto-conhecimento” hoje em dia está em que ninguém é uma má pessoa, todos somos apenas “incompreendidos”. A dúvida é porque alguém realmente iria aceitar essa premissa. É importante notar que mesmo Freud nunca acreditou nisso, muito pelo contrário, e inclusive observou em ‘Civilization and it’s Discontents” que o homem é o lobo do homem. Mesmo assim os defensores de uma visão “psicológica” do homem freqüentemente ignoram essa observação.

A astrologia do “pensamento positivo”
Quando adotamos essa doutrina da auto-estima e do pensamento positivo, temos também que adotar todas as conseqüencias do individualismo que levam a esse “pensamento fantasioso”, porque na verdade é isso que ouvimos todos os dias… que devemos fantasiar.

A astrologia moderna olha para o mapa e nos fala sobre o nosso “potencial” e como podemos desenvolver esses potenciais, potenciais que lutamos para alcançar e estar à sua altura. O problema é que o “potencial” pode ou não se realizar. O que acontece quando nós não consiguimos viver dentro do padrão estabelecido por nossas expectativas. Entender a nós mesmos não é a mesma coisa que determinar as realizações de nós mesmos. Entendimento implica diferenciar entre o que podemos e não podemos fazer. É conhecer nossos limites e os limites do que podemos fazer. É simplesmente reconhecer que a alguns são dados cinco talentos, a outros três, e a outros apenas um. O que nos torna “iguais” é a habilidade de escolher o que fazer com o que nos é dado. Dizer “bem, eu tenho apenas um talento, então não vou nem tentar” é derrotismo. Comparar esse talento com os outros cinco que outras pessoas podem ter é um desserviço. Ser sincero é determinar o que alguém pode fazer com o seu talento é honestidade. As pessoas estão cansadas de que digam para elas que elas têm esse e aquele potencial, e depois nunca conseguem concretizá-lo, e ficando deprimidas ou amargas porque alguem mentiu pra elas sobre as imensas “possibilidades” e “potenciais” que elas tinham para o futuro.

Eu tenho uma prática concorrida porque meus clientes sabem que eles podem me consultar e eu serei honesto, eu tentarei ajudá-los a trabalhar com suas circunstâncias.

A astrologia moderna serve à nova “religião secular” do humanismo, e assim busca validar sua “religião”. A razão que você encontrará a astrologia tradicional em todas as práticas religiosas antigas, como o Sabeanismo, o Hermeticismo, a Qabal’ah, o Islã e a Cristianidade é porque a astrologia tradicional não é subordinada a nenhuma religião. Ela valida a vida, independentemente da religião.

A vida não é uma questão de sucesso ou fracasso, conquista ou azar, nem tampouco sobre bem ou mal; é uma questão de atravessá-la e experimentá-la realmente, transformando uma vida “medíocre” em algo excepcional porque foram vidas vividas excepcionalmente bem. Se tudo o que eu posso ser na vida é um astrólogo medíocre, eu serei o melhor astrólogo medíocre da região !
Steven Birchfield

[1] Tentei traduzir o melhor possível, mas não tenho muitos conhecimentos bíblicos: “There hath no temptation taken you but such as is commontoman…”
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