Como acalmar os planetas?

Posted on 7 de fevereiro de 2009

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solluna

Eu recebi a seguinte dúvida do Jefferson:

Tenho sol na casa 12 e lua na 6. Sol faz oposição com a lua. Você tem alguma sugestão de acalmar os planetas, e como lidar com a oposição em si? Gostaria muito se voce puder responder. Um abraço.

Esse é o velho problema de “Como lidar com as coisas ruins no mapa”. Por algum motivo ninguém pergunta como lidar com as coisas boas ! Como não há resposta simples, eu preferi escrever logo um post a respeito das múltiplas abordagens possíveis.

Abordagem Psicológica

Essa é a abordagem preferida da astrologia moderna: como para a astrologia moderna tudo no mapa só existe na nossa cabeça, tudo também só tem um objetivo e uma solução, o “auto-conhecimento”.

Dentro dessa linha, tudo o que a astrologia pode mostrar é meramente um “mapa” de seus conflitos psicológicos, conflitos que você pode resolver, seja pela experiência de vida, terapia, ou, supostamente, através de astrólogos, mas tenho minhas dúvidas quanto ao último ponto. Em geral, só tenho visto pessoas superar seus problemas é através do velho e antigo processo de envelhecimento.

“Representação Simbólica”

A segunda maneira defendida por astrólogos modernos como Robert Hand é representar o “simbolismo” dos astros. Ele dá o exemplo de uma mulher que, ao invés de ter uma crise de alcoolismo, na verdade representou o papel de uma alcoólatra numa peça de teatro. Assim, por exemplo, ao invés de viver um saturno como uma morte, você poderia se planejar e fazer outras coisas saturnianas, como fazer esculturas de barro, e evitar o pior lado de saturno.

Eu pessoalmente acho a teoria toda muito suspeita. Se isso fosse verdade, imagino que todos os atores tivessem vidas maravilhosas, mas o que se vê é que atores tem sua cota de divórcios e alcoolismo bem maior que  a média dos pobres mortais.

Eu acho que essa teoria vem de observar fatores pouco conclusivos, como trânsitos (que muitas vezes não resultam em nada) , e chegar à conclusões muito “elásticas” a respeito.  A pessoa fica esperando que algo vá acontecer de muito ruim, e dá aquela previsão catastrófica. Depois de um tempo a pessoa reclama que nada aconteceu e dai a saída pela esquerda sempre pode ser que “ah, mas você evitou o pior do trânsito porque fez aulas de cavalo”.

Tirando a abordagem da astrologia moderna logo do caminho, assim usa quem quer e não tem maiores preocupações, resta aos que buscam o caminho tradicional procurar por bases filosóficas mais sérias e profundas que a estante de auto-ajuda, Deepak e Liz Greene.

Estoicismo

Acho que a primeira escola importante a se pensar é o estoicismo. Tenho dúvidas sobre a influência do estoicismo sobre a astrologia dos gregos, mas há elementos que me parecem presentes.

Os estóicos, muuuuito superficialmente falando, eram muito deterministas e acreditavam que o futuro já estava escrito, e cada homem tinha sua quota de coisas boas e más a acontecer. Maktub. Apenas que os homens não tem a inteligência para saber as relações de causa e efeito. Mas o homem sábio não tem nem medo do futuro, e nem o espera com antecipação: ele aceita o que vem, e tenta livrar-se das paixões do mundo. Dos filósofos estoicos, o mais divertido com certeza é Seneca, que eu sugiro.

A postura de distanciamento dos estóicos é muito difícil de ser compreendida ou aceita no mundo atual do reality show e do consumismo. As pessoas acham que tem o “direito” de ser felizes, ricas, famosas, magras, etc, e se sentem enganadas quando esse seu direito divino não é cumprido. Quem duvida, pergunte a qualquer professor qual é a postura dos alunos de hoje em dia: ninguém acha que tem o dever de estudar; se o professor fosse “bom”, então se aprenderia sozinho. Claro.

Para várias coisas na vida, eu acredito que o estoicismo é a única saída possível. Todo mundo vai morrer, ponto. Há os que morrem gritando e os que morrem sozinhos e os que vão tranqüilamente, mas todos morrem e a forma não faz necessariamente muita diferença. Todos ficam velhos, e a única alternativa para isso é morrer cedo. Em geral nossos pais morrem antes de nós, e, se tivermos azar, nossos filhos. Não há garantias para ninguém nessa vida  contra o mais básico da guerra, violência, fome e doença. Esse é um dos motivos porque se fala tão pouco sobre morte em astrologia moderna.

Aceitar que uma parte da vida é sofrimento é algo que no entanto não deve ser confundido com as pseudo-espiritualidades do século XX do tipo “tudo acontece por uma razão” e “sofrer é bom porque você vai se tornar uma pessoa mais iluminada”.

Uma frase importante dos estóicos: “O que a sorte não nos deu, ela não pode tirar de nós”.


Aristotelismo

A concepção mais importante de destino, viver bem, e felicidade, vem sem dúvida da filosofia de Aristóteles. Enquanto um estoico argumentaria que a felicidade é um processo totalmente independente do mundo, do homem buscando a racionalidade e seu próprio valor, e uma pessoa na sociedade moderna (inclusive astrólogos) geralmente busca sua felicidade apenas em itens exteriores (casa, sucesso, fama, dinheiro, carros, filhos, títulos, reconhecimento, anti-depressivos) os aristotélicos tinham uma postura mais comedida. A felicidade não depende exclusivamente de bens materiais, mas uma pessoa feliz tem em geral suas necessidades satisfeitas.
Uma pessoa que renuncia a todos os bens materiais e vai virar um monge ou yogi é um caminho para a espiritualidade e felicidade, mas não é o único, e para os aristotélicos não seria sequer o melhor. Eles em geral evitavam os extremos como maléficos. O exemplo mais conhecido é a questão da coragem como equilibrio entre a covardia e a impusividade temerária. Nem por isso deve-se confundir a postura dos aristotélicos com o relativismo moral de hoje em dia, ou com uma defesa da mediocridade (do estilo “classe média de centro” e “desperate housewives”).

Para quem quiser notar, a astrologia natal, quando vê o mapa do nativo, busca justamente isso. A maioria dos fatores astrológicos estão pensados para mostrar o “equilíbrio” na vida da pessoa. Temos o mesmo número de casas boas, más e neutras. Os planetas são benéficos, maléficos  e neutros. A carta é um balanço entre amigos e inimigos, saúde e doença, amores e ódios. O mapa astral poderia ser encarado dentro desse campo como o mapa do caminho, onde nos encontramos com nossos excessos, e nossas paixões, e podemos moderá-los. Ou o mapa de nossas restrições, e como aceitá-las, e principalmente, qual é o caminho da ação correta, que nos leva a um melhor viver.

Para ver o tema mais profundamente eu sugiro o artigo de Ben Dykes Hapiness in medieval astrology.

Hermeticismo e Neo Platonismo

Na concepção que deriva do Hermeticismo e Neo Platonismo, o Universo é “composto” por Deus. O universo é basicamente Deus “emanando” a si mesmo através de dez esferas até o nosso universo físico. Esse não é um processo único num ponto definido, é um processo constante de manifestação e emanação. As últimas esferas, do Primum Mobilae e das estrelas fixas, são imutáveis e inalteráveis. Elas apenas são. As esferas dos 7 planetas são cíclicas, alterando sempre de qualidade, mas sem nunca mudar. Saturno vai de virgem a libra, mas sempre continua saturno.

Abaixo da esfera da Lua temos o mundo material, da manifestação, Malkuth na cabala. É o mundo da geração e da corrupção, onde tudo é rápido e nada é permanente. Outra influência do platonismo é que o mundo material não é o “real”, o mais importante… ele é mera sombra do mundo espiritual e não-material. Ele é reflexo dos movimentos que vemos nos astros, e essa é a base da astrologia, não a teoria do caos ou “a mecânica quântica prova a astrologia”.

Nesse modelo, o homem é ao mesmo tempo carne e espírito, e há um movimento duplo. Primeiro o movimento de manifestação do espírito em carne. O segundo o movimento de ascensão do espírito que quer se livrar da matéria. No modelo H&NP, o homem tem natural autoridade para comandar os espíritos sub-lunares, de natureza baixa, ao mesmo tempo que pode pedir ajuda e conselho para as entidades das esferas superiores (identificadas depois com os anjos, arcanjos e quetais). Através dessa autoridade o homem pode alterar o mundo ao seu redor, na prática geralmente chamada de magia.

Daí surgem como opções para lidar com uma carta natal aflita os talismãs, a invocação de entidades planetárias, como os Arcanjos (ver Cornelius AGrippa, por exemplo) ou os anjos e entidades sub-lunares (ver a Chave de Salomão).

Na cultura indiana, a astrologia védica propõe como possibilidades a caridade astrológica, o uso de pedras preciosas, e os mantras, além de outros tipos de rituais usados para aliviar karmas particulares.

É importante lembrar que dentro dessa concepção, a alma decide que tipo de vida ela quer levar. Depois que ela decide que tipo de vida, os Destinos decidem o momento de nascimento que vai refletir aquela vida. Infelizmente o tipo de vida que queremos levar, enquanto almas, não é necessariamente o mesmo tipo de vida que queremos depois de nascidos em carne… Mas mesmo assim, as coisas que encontramos na vida são consideras como sendo todas parte do caminho escolhido previamente.

Usar as cartas que tem

Christopher Warnock recentemente deu uma entrevista, em inglês, sobre livre-arbítrio, destino e astrologia. É dificil resumir, mas basicamente, o destino não é uma coisa que diz “não”. O destino é algo que diz “sim”, que forma, que dá consistência e significado a sua vida. É o seu caminho pré-determinado por sua alma.

No entanto, essas são apenas as cartas que recebemos. Através de sabedoria (Aristóteles) e resignação (estóicos), podemos otimizar nosso caminho para a felicidade.

Por exemplo, a maioria das pessoas quer tudo. Mas algumas nunca terão filhos. Outras nunca terão uma carreira de sucesso. Sabendo que certas opções não serão encontradas na vida, é melhor se concentras nas que serão, ao invés de reclamar que é injusto não ter tudo.

Ou, podemos usar a astrologia para facilitar certas decisões. Se mercúrio está totalmente aflito, talvez uma carreira em jornalismo não seja a melhor escolha. Aquela vênus em ótimo estado talvez represente uma vocação muito mais forte para o canto, mesmo que papai ache que isso não dá dinheiro.

Se nossa carta diz que dinheiro será dificil, isso não significa que vamos morrer na pobreza. Significa que você vai ter que trabalhar mais e economizar mais. Se diz que o dinheiro vem e vai, que você tem que estar prevenido para os dias de vacas magras.

Como no poker, as cartas que recebemos são apenas um fator. Também depende muito a realidade em que nascemos (você nasceu nos Estados Unidos ou no Afeganistão?) e de nosso talento e sabedoria para aproveitar a Senhora Sorte.

Somando tudo

O exemplo perguntava sobre uma oposição sol-lua. Como falamos em artigos anteriores, há inúmeras possibilidades de delineação, algumas delas:

  • problemas entre pai e mãe
  • problemas entre marido e esposa
  • problemas de saúde

Todas essas indicações devem ser vistas como tendências. Um monte de gente vai ter essa oposição e não vai ter nenhum desses problemas. Mas vários vão ter. Como dito antes, busque por confirmação.

O engraçado é que, quando falamos sobre “destino”, as pessoas ficam com medo, mas em geral a astrologia revela apenas o que as pessoas já conhecem como realidade: “ah, sim, eu casei três vezes e a gente sempre brigou muito”.

Unindo todos os passos anteriores, vemos que há várias alternativas a ficar em casa deprimido com seu mapa natal, ou fazer o “jogo do contente” brincando de Pollyana.

Se sua carta indica problemas de saúde, você simplesmente vai ter que se dedicar mais que as outras pessoas. Como uma pessoa que tem vários parentes diabéticos, tem que pensar duas vezes antes de comer um bolo.

Se a carta indica problemas maritais, um casamento com separação de bens é uma possibilidade. Escolher uma ótima eletiva para o início do casamento. Esperar para casar depois dos 30, quando as pessoas têm mais maturidade. Procurar na carta astral com que tipo de pessoas combinamos mais, etc. Ou simplesmente desistir do casamento tradicional e ter uma relação mais “muderna”.