Fundação de Bagdá

Posted on 31 de março de 2009

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Bagdá, antes de virar playground dos americanos procurando petróleo para suas SUVs (as caminhonetes do tipo bebedora de gasolina, que na gringolândia é considera item de primeira necessidade), foi um dos maiores centros culturais e científicos do mundo. Na época que era costume na Europa jogar as fezes pela janela da rua, Bagdá já tinha iluminação pública.

Ao contrário da maioria das cidades, que apenas vão se acumulando, Bagdá foi construída. Ao contrário das Brasílias da vida, feitas de qualquer jeito, o momento da fundação da primeira pedra foi escolhido astrologicamente pelos melhores astrólogos do califa. E, o ponto chave, esse horóscopo sobreviveu até hoje.

A esquecida arte da astrologia eletiva

Há duas artes que praticamente desapareceram no tempo: a astrologia mundana, que cuida da previsão sobre os reinos e nações, e a eletiva, que cuida da escolha do melhor momento para se empreender uma ação.

A astrologia mundana foi substituída pelo “comentário depois do fato”. A astrologia, que já teve melhores dias, hoje está presa ao mesmo pequeno papel que os economistas de televisão, dizer bobagem sobre o que todo mundo já sabe. A astrologia eletiva foi substituída por uma série de conselhos que nunca foram postos em práticas pelas pessoas que os aconselham.

Combinar as duas, e fazer uma eletiva para uma cidade ou nação, então nem se fala. O último casos que eu conheço foram a coroação da Rainha Elizabeth, elegida por John Dee, e supostamente a declaração de independência de Burma.

Falar mal é fácil

Como a astrologia eletiva é “a arte do possível”, nenhuma carta será perfeita. Você não pode esperar 2 semanas para mandar um email, cinco anos para se casar, ou três décadas para construir a cidade. Você pega o que é possível.

Por isso que um sinal de extrema descortesia e até despreparo, é criticar a carta eletiva de outro astrólogo, sem oferecer uma opção no seu lugar. Por que ? Porque toda carta é imperfeita e já sabemos disso. Elas são falhas por definição. É o dever de quem critica achar uma carta melhor !

E acredite em mim, sempre vai ter um problema. Em uma, marte vai estar angular, na outra vênus perdeu dignidade, você ajusta mais um pouco e a lua fica em quadratura com saturno, ou então o evento ficou muito próximo de um eclipse, etc, etc. Não há escapatória, e acho que isso reflete também sobre a natureza da vida, ganha-se numas, perdem-se em outras.

Como aprender eletiva

A astrologia eletiva talvez seja a mais difícil de se aprender, justamente porque não reconhecemos nossos erros. Na horária, às vezes basta alguns dias para se ter um resultado. Dos nossos erros é que aprendemos. Mas na eletiva, quando sabemos se erramos ou não ? Veja o caso de um casamento que acaba em divórcio ? A data do casamento não foi bem escolhida ou os dois eram incompatíveis? E, se a média de duração de um casamento for de 4 anos, e os dois duram 8, brigando o tempo todo, foi um sucesso ou um fracasso ?

Então uma maneira interessante parece ver as cartas que os antigos realmente fizeram. Isso é importante. Se você lê william lilly por exemplo, você vê que a maneira como ele interpreta é bem diferente da maneira como ele diz que você deveria interpretar uma carta.

A carta de Bagdá

James Holden, baseado em Al Biruni, diz que a data da construção de Bagdá, é 31 de Julho do ano 762 (no calendário Juliano). Nessa carta temos um ascendente em sagitário com Júpiter perto do ascendente.

John Frawley usa uma carta diferente, com Júpiter no Meio do céu. Como Frawley não dá referências nem justificações, ou ele cometeu um erro, ou inventou da cabeça dele.

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Curiosamente, os astrólogos modernos sequer conseguem decidir se o resultado foi afinal bom ou ruim ! Numa recente revista indiana, o autor chega ao ponto de decretar que a carta é tão ruim que os astrólogos na verdade conspiraram para derrubar o poder do califa ! Esse é um exemplo de uma teoria conspiratória um pouco extremada: “eu não entendo essa carta, eu não gosto dela, então é óbvio que eles fizeram essa carta pelos motivos errados”. Obviamente essa conclusão foi tirada através de, tcham, tcham, tcham, tcham. Plutão !

Considerando que plutão não seria conhecido pelos próximos 1000 e trocentos anos, será que os pobres astrólogos do califa escolheram, por puro acaso, uma data em que Plutão estava sentado no ascendente ? Que nada, plutão estava quietinho em escorpião, muito longe de qualquer aspecto com os ângulos da carta. Daí esperamos a sugestão de onde colocar esse maléfico moderno, já que aparentemente nem na casa 12 ele sossega (a casa 12 é uma casa “invisível”, onde todas as coisas que entram têm sua influência diminuída).

O único fator não plutoniano mencionado é a oposição de marte e júpiter retrógrado na carta. Isso “certamente” prova a conspiração.

O fato é que, como dito antes, nenhum dos astrólogos críticos sabe realmente como fazer uma eletiva para criar uma cidade ! É um conhecimento antigo e que se perdeu. Além disso não sabemos quais eram as restrições reais de tempo e recursos que eles tinham. Ao meu ver, a postura que deveríamos ter é de humildade, vendo a carta com cuidado e procurando qual foi a sua lógica e ver o que podemos aprender dela. Simplesmente dizer “eu não entendo essa carta, portanto ela é ruim”, não me parece uma postura de respeito com o conhecimento passado.

Note também que a “prova” de que a carta de Bagdá foi mal elegida é basicamente por problemas atuais, com invasões americanas e terrorismo. Ora, e os outros 1.300 anos de história ? E toda a época em que Bagdá foi a jóia do oriente, com cultura, ciência e arte, na época que os europeus morriam aos milhões por causa de seus piolhos? Aparentemente na mentalidade moderna isso não conta. Onde estará Brasília ou Washington em 1300 anos ? Provavelmente em pó!

Mistérios da Carta de Bagdá

O primeiro ponto a se analisar é Júpiter. Júpiter obviamente foi escolhido para ser o significador mais representativo de Bagdá. Ele rege o ascendente e está em conjunção ao ascendente (não temos o momento exato para saber a distância, mas está perto). Ele rege nao apenas a casa 1, mas também a casa 4 das construções e bases.

Qual é o estado de Júpiter. Júpiter está angular então pode dar 100% do que e´prometido. A qualidade do que é prometido é boa, já que júpiter está em seu próprio signo. Como o signo é masculino, júpiter é um planeta diurno, e a carta é diurna, Júpiter está em hayz e seu potencial para manifestar-se é excepcionalmente forte. Além disso, apesar de Júpiter aparecer como retrógrado, ele ainda está em seu período de estação. Principalmente na astrologia védica e helenística (que provavelmente tinham grande influencia sobre Mashalah) planetas em sua estação são muito importantes, são como grandes avisos no céu dizendo “olhe aqui primeiro”. Júpiter também recebe um positivo trígono do sol.

O grande mistério, como já mencionado, é a oposição com marte. Oposições devem ser evitadas em astrologia eletiva, principalmente com maléficos. Marte na casa 7 especificamente parece determinado a representar guerras e inimigos !

Além do mais, pareceria fácil evitar esse aspecto: esperando apenas alguns dias marte estaria se afastando da oposição com júpiter e seu poder cairia tremendamente.

Classical astrologer tenta interpretar essa oposição, mas com vários erros. Ele afirma que Júpiter não enxerga a marte porque estão em casas diferentes. Isso não tem importância no assunto, já que eles realmente estão fazendo um aspecto de oposição ! Não vai ser uma leve diferença nas casas que vai impedir esse aspecto!

Nina Gryphon pensa que o problema pode ser de pragmatismo… os astrólogos não achavam realista esperar por um reinado pacífico para uma cidade como Badgá, e já a criaram preparada para a guerra.

Uma possibilidade que eu vejo no argumento de Nina Gryphon é que uma técnica passada por Bonatti é de colocar aos planetas superiores (marte, júpiter e saturno) como representantes do seu exército, enquanto os inimigos recebem os planetas inferiores (principalmente mercúrio e vênus). Note que Bagdá fica com Júpiter e Saturno (regente da casa 2, representando seus recursos e exércitos), enquanto o inimigo genérico fica com mercúrio e vênus ! Note também que mercúrio, representante do inimigo, está peregrino, na casa 8, retrógrado, e conjunto ao nodo sul.

É possível também que eles colocassem marte na casa 7 para afligir a casa 7, mas isso eu não tenho muita certeza.

Nina Gryphon e Classical astrologer notam que o sol na casa 9, em seu próprio signo, estava em sua casa de júbilo, onde representa a religião, piedade e sabedoria. O sol também estava conjunto à estrela regulus (que hoje em dia está em 29 Leão) e que dá muito poder e fama. Houve um eclipse solar uma semana antes. É pouco claro para mim se o astrólogo estava tentando se aproveitar das energias do eclipse, ou se ele estava tentando uma eleição o mais longe possível do eclipse, e achou que uma semana fosse suficiente.

É dificil entender a posição da lua. Ela está no final de um signo no qual não tem especial poder, está num ponto crítico que é a “quadratura” aos nodos e faz um aspecto fora-de-signo de oposição a Saturno! É dificil saber aqui o que eles queriam, pois é muito diferente da prática atual ! Algumas hipóteses que tenho:

  • Eles seguiam o conselho de Dorotheus de colocar a lua crescente e também aumentando em latitude (mas Dorotheus diz para deixar ela no equador, e ela está com latitude máxima sul!)
  • Esses astrólogos ou não consideravam a oposição com saturno (por estar fora de signo), ou consideravam que a lua em libra tinha mútua recepção com saturno em touro. Mas isso contraria algumas cartas em que Mashalah considerava a recepção a partir do próximo signo, ou seja, como a lua iria para escorpião, ela teria recepção com marte, mas não com saturno…
  • Eles queriam propositadamente enfraquecer a lua, por ser significadora da casa 8 (morte e recursos do inimigo).
  • Eles queriam conectar a lua com a casa 11, e conectar esses dois a casa 7. O simbolismo seria de trazer comércio, poder ao rei, e amizades aos aliados.

Mas, como ditos antes, tudo isso é apenas especulação. Ninguém deixou a planta com as explicações!

Por último, note as partes arábicas. A parte do espirito está exatamente no MC. A parte do espirito era também chamada de parte dos reis. Talvez isso fosse uma maneira de consolidar o poder real. Há várias outras partes, como a parte da vitória, do valor, etc, que estão conjuntos a pontos importantes, como o sol, o MC, Júpiter e o ascendente !

Uma carta importante e interessante para se investigar como se fazia eletiva na prática, já que temos muito poucos exemplos do processo. Muito melhor parar e estudar com profundidade, do que sair gritando aos quatro ventos que plutão na casa 12 causou a invasao dos EUA 1300 anos depois.