Divinação

Posted on 3 de junho de 2009

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scryinglap

O leitor Carlos tem me “interrogado” querendo saber o que constitui os sistemas divinatórios, principalmente perguntas referentes a como funciona ou pode funcionar métodos como o I ching e o tarot.

O entendimento disso pode nao parecer muito importante para quem estuda só astrologia moderna (com seu foco exclusivo em natal), mas astrólogos tradicionais estao acostumados com a astrologia horária, que tem a mesma natureza divinatória do tarot, i ching, runas, etc.

Imagina que uma pessoa faz um oráculo próprio, pode ser um baralho feito pela pessoa, ou outro tipo de oráculo, não tem que ser cartas. Ele funcionará segundo as regras estipuladas pela pessoa?

Eu ia usar um artigo de uma revista, mas infelizmente ele saiu do ar, entao vou ter que fazer de memória. Bem, azar deles que perdem o link.

A pergunta é muito comum em coisas como tarot, que vieram ao Brasil pela via esotérica, e é comum no povo do “eu nao sigo regras porque sou intuitivo”, que deve ser lido como “eu não aprendi profissionalmente e nao tenho muita idéia do que estou fazendo. Às vezes acerto”.

No tarot, para deixar claro o assunto, podemos dividir a simbologia entre “temas universais” (que não são universais, mas são amplamente aceitos) e convenções pessoais.

Um tema universal é aquele que é amplamente aceito e é razoavelmente óbvio a partir da figura e da história do arcano. Por exemplo associar a Torre com queda, perda de poder, a situação se inverte, cuidado com o ego, etc, etc, etc.

Um exemplo disso é um “tarólogo” que eu vi na televisão, dizendo “previsões” para um cantor local: só falou belezas, e as cartas todas do tipo Morte, 3 de espadas, 5 ouros, Torre, Diabo. E ele falando maravilhas, até que a apresentadora, tímida, interrompeu, “mas essas cartas não parecem muito ruins, não?”

Ou seja, até um amador pode captar o tema universal a partir da figura da carta. Já ensinei alguns princípios básicos de tarot para amadores assim: sem saber nada sobre a carta a pessoa tenta responder uma pergunta e se guia pelos elementos visuais e suas associaçoes.

O segundo tipo é a convenção pessoal. Ela surge de experiencias anedóticas importantes, de associações particulares da pessoa, ou seja um insight, etc.

Exemplos, cada vez que se pergunta sobre viagem e você vê a carta Temperança, você diz “Europa”. Nao existe em nenhum livro isso. Essa é sua convenção pessoal, que você criou por sua experiência e desejo.

Ora, tendo claro esses dois conceitos, é inevitável que qualquer pessoa orientada pela lógica pergunte quais são os limites da convenção pessoal. Minha teoria pessoal sobre o assunto é simples: o significado convencional deve estar dentro do significado coletivo.

Muita gente convenciona coisas como razoavelmente arbitrárias, como nomes e países, como exemplificado acima. Já vi coisas como a Força representando “homens gays”, o Papa representando “homens casados”, etc. Como explicado, esse tipo de convenção só vale para a pessoa e não faz parte do folclore e das técnicas comuns entre os praticantes.

Funciona? Ou seja, se o tarot responde a esse tipo de convenção, não tem nenhuma barreira para dizer “funciona assim porque eu quero”. Como dito acima, mais ou menos. O tarot responde a convenções, mas de maneira limitada.

A resposta mais curta seria se o tarot respondesse de maneira ilimitada a convenções, seria impossível errar uma leitura. Cada um leria do seu jeito e sempre acertaria. Não seria necessário “aprender” o tarot ou astrologia, porque nao haveria nada a aprender. Cada um inventaria seu próprio método, e a partir do momento em que fosse inventado, ele passaria a funcionar.

Qualquer pessoa pode inventar uma convenção do tipo “temperança significa viagem para os EUA”. Geralmente isso vem de um caso de sucesso que ficou na sua memória. O problema é ver se isso realmente funciona de maneira consistente, já que o número de casos que você verá será normalmente bem limitado. Normalmente a pessoa não lembra dos casos onde a Temperança apareceu e nenhuma viagem foi marcada, mas isso é outro tema.

Então quais são os limites dessas convenções? As convenções morrem quando (1) elas contradizem o simbolismo mais amplo ou (2) elas são muito restritas ou limitadas para descrever a situação real.

Assim, se você atribui certos significados que vão contra a natureza da carta, eles nao vao funcionar. Tenho visto várias pessoas interpretarem incorretamente a carta “o carro” como sendo sucesso, conquista, e entao em perguntas do tipo “vou conseguir o emprego” sempre julgarem “sim”. Ora, apesar do Carro realmente ter conotações de sucesso, há um simbolismo mais profundo que tem que ser analisado, pois o carro é principalmente uma carta marcial, de conflito, luta e, através dessa luta, o possível sucesso. O tipo de sucesso que o carro traz não é nem garantido, e nem é o tipo de sucesso que é adequado para um relacionamento amoroso, por exemplo.

Um outro exemplo seria ler a carta do Imperador, que é pouquíssimo emotiva, como tendo o significado de casamento. Nao, ela não tem. A convenção particular não tem o poder de criar significados que o símbolo, no seu nível maior e mais profundo, não tem.

O segundo problema lógico vem quando a atribuição do significado convencional é muito restrito para mostrar a realidade. Ou seja, fere o princípio do “o que está embaixo é igual ao que está acima”. Carlos coloca um exemplo desse tipo de “oráculo” em sua pergunta:

“Imagina que o teu oraculo tem uma pedra branca e uma pedra negra. se perguntas “qual é a cor do carro do Roberto?” se esse carro é azul, sai a pedra preta. se o carro é amarelo, sai a pedra branca. O oraculo está a responder bem dentro dos seus limites.”

Sim, mas os limites foram definidos de maneira demasiado restrita e param de representar o universo. Vou discutir isso na próxima semana, com um exemplo mais “didático” para que o que eu fale não fique tanto no vazio.

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