Emergência

Posted on 10 de junho de 2009

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divination

Como dizia na semana passada, o símbolo responde a convenções pessoais, mas os significados atribuídos a ele não podem ser contrários ao significado maior e mais profundo, que foi atribuído histórica e culturalmente ao longo do tempo.

Mas não são todos os significados atribuídos ao símbolo, em última análise, também arbitrários? Por exemplo atribuir vermelho a marte, é uma característica universal do símbolo, ou é cultural e limitada no tempo e espaço?

É verdade que  que os significados atribuidos a cada símbolo sao sim, arbitrários, culturais e temporais. Se a cor vermelha no ocidente foi associada a marte, ao sangue, à paixao, à guerra, ela também foi associado à Júpiter e à Realeza (vermelho era o pigmento mais difícil de se conseguir, e basicamente só estava disponível para os reis e os muito ricos).

Como o mago Jason Miller diz, para um mago tibetano o vermelho estaria associado com magia de influência e encantamento, para um Haitiano a nação Loa, para um feiticeiro vodu seria magia sexual, etc. Atribuições de cores, direções, certos símbolos, podem ser considerados como “âncoras” que ligam o mago ao seu sistema e tradição de magia.

No entanto, Jason Miller também lembra que essas âncoras tem sim poder e uma existência real dentro da esfera do mago. Ele conta a experiência de um conhecido, que usava frequentemente o ritual da escola Golden Dawn, de invocaçao das energias planetárias de Júpiter, o ritual do hexagrama. Só que o sujeito estava ficando cada vez mais deprimido e introvertido, e isso porque o fulano estava fazendo o ritual errado, invocando o hexagrama de saturno e nao o de júpiter.

Ora, considerando que o ritual é relativamente novo e arbitrário, e que a única diferença entre o ritual de júpiter e de saturno é a maneira como se traça um hexagrama no ar, o resultado é bem importante. Como eu disse antes, se convenções pessoais funcionassem tao bem, ninguém errava, e todo iniciante bobo seria mestre. Mas a experiência com astrologia, tarot e mesmo magia mostra que não é assim.

O que é a emergência?

Para entender esses processos, acho importante entender o conceito de  emergência. Vamos analisar um sistema de signos que não é nada místico: a matemática.

Responda primeiro à seguinte pergunta: a matemática é “descoberta” ou “inventada”?

A resposta é que é um pouco das duas. A matemática é composta por conjunto de regras, feitas de maneira razoavelmente arbitrária, criadas por uma matemático em algum momento. Por exemplo regras de transformaçao de simetria criam a teoria dos grupos.  Basicamente se cria um conjunto de signos, e relaçoes entre signos, e operações sobre esses signos.

Por exemplo, você pode criar coisas que são aparentemente desprovidas de qualquer sentido, como o número imaginário, i, que é a raiz quadrada de -1, que não tem solução nos números reais. A partir do momento que você cria um novo conjunto de números, chamados complexos, dos quais os números reais sao apenas um subconjunto, os matemáticos começam a descobrir relações a partir desses números. Note que não há motivo para que isso resulte em nada útil, mas acaba sendo. Nao há motivo para que esses números imaginários tenham qualquer aplicaçao no mundo real, mas eles tem.

A partir de convençoes e relaçoes definidas mais ou menos arbitrariamente, uma série de leis e relaçoes podem surgir espontaneamente, na forma de padroes e leis, e essas relaçoes nao sao criadas pelo matemático… é muito mais exato dizer que elas sao descobertas.

Esse surgimento espontâneo de relações, padrões ou ordem a partir de um conjunto pequeno de relações simples é chamado de emergência. Do mesmo jeito que a emergência existe em sistemas orgânicos complexos, também existe na matemática e nos sistemas divinatórios.

Note o padrao que é necessário para termos o que chamo de emergência:

1- um sistema feito de partes simples e de suas relações entre as partes, que são, até certo ponto, arbitrárias, apesar de no sistema divinatório ele está sempre vinculado a uma filosofia mística.

2 – esse sistema, ao ser trabalhado na prática, e não apenas no blá-bla-bla, tem certas propriedades autônomas que são “descobertas” e não criadas. Por exemplo, no tarot, a carta da Torre representa queda e fracasso, mas depois de algumas experiências você descobre que, em situações rigidas e sem esperança, o surgimento da torre na primeira posição significa o rompimento do ciclo de fracasso.

3 – veja que essa propriedade da Torre é descoberta. Ela não é algo que você viu no livro. Mas também não é algo que você colocou como uma mera convenção pessoal.

Agora entenda melhor o meu postulado do artigo da semana passada: uma convenção pessoal nao pode, por natureza, quebrar as convenções mais “universais”, seja do tarot, da astrologia, do i ching, porque a própria maneira de ler o sistema divinatório depende de regras que emergem naturalmente, mas que estão ligadas a essas convenções arbitrárias. Mudou uma parte, mudou todas as partes.

Por isso que as pessoas que mudam uma parte de um sistema, por exemplo as que acham que a casa 8 na astrologia é boa, ou que ignora as casas negativas do feng shui, ou que lê o I Ching como se fosse um livro de conselhos e poesia, está mudando o sistema integralmente. Você não pode usar plutão como “regente” de escorpião, e depois querer usar as regras normais da astrologia tradicional, por exemplo. Você não pode ficar usando bobagens como o “canto do amor” e depois dizer que está usando feng shui. Você já está usando uma versão mutilada e bastarda.

“Esse processo de emanação é inerente só a criação de um oraculo proprio, ou todos os oraculos devem ser “imanados”, por exemplo, o mal funcionamento de um Tarot de Marselha pode ser devido a falta de emanação?”

Todos os oráculos partem, como dito acima, de um conjunto de regras conectam o funcionamento do oráculo ao universo espiritual. O I ching por exemplo usa a teoria dos cinco elementos. A astrologia usa a heptarquia, os quatro elementos, etc. Quando o conjunto de regras representa adequadamente o universo espiritual, temos que entra a parte divina da “divinação”. Os padrões que surgem naturalmente no oráculo, e que chamamos de “aprender”, ou “ganhar experiência prática” com o oráculo, surgem desse processo que emana do espiritual ao físico.

Na próxima semana eu exemplificarei toda a minha ladainha com a criaçao de um oráculo novo, e a mostra de como as regras, por mais arbitrárias que possam parecer para o pensamento moderno, seguem uma ordem, e como o processo de emergência é natural para qualquer sistema divinatório.

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