Crie seu próprio oráculo

Posted on 29 de junho de 2009

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waterscrying

Como eu prometi, aqui vai um artigo que tenta mostrar “na prática” as possibilidades e limitações na criação de um oráculo.

Eu estou me baseando num artigo da revista Rendering the Veil, mas esse artigo foi tirado do ar, e não tenho uma cópia, e a editora da revista me respondeu dizendo que ela não tem previsão de quando vai poder restaurar os arquivos da revista, então fica por assim mesmo e eu tento fazer um pouco de memória, um pouco improvisando.

Então vamos brincar um pouco e fazer um oráculo com moedas. Por que moedas? Porque elas são simples (caras ou coroas), estão amplamente disponíveis, você pode usar elas em qualquer lugar sem precisar escondê-las, são resistentes, etc.

Primeira Tentativa – que tipo de moedas?

A primeira tendência é o que eu chamo de “fetichismo”. A moeda é usada para trazer a verdade. Portanto a moeda é mágica, ela é especial, ela que “fala”. Precisamos de uma moeda especial e protegê-la com cuidado.

Desse raciocínio que aparece certas crendices por aí. Por exemplo o povo que acha que o tarot é mágico, que só se toca com tal mão, que só se lê em tal hora do dia, etc. Nenhuma dessas “regras” faz sentido, são superstições que a pessoa cria por si mesma, e que geralmente acabam limitando sua própria leitura.

Mas a moeda é apenas uma moeda, o tarot é apenas papel, os dois foram criados por um fabricante industrial, nenhum dos dois tem mérito por si só.

Segunda tentativa – vamos criar atributos

A maneira mais lógica e simples é convencionar um atributo.

Como o atributo é arbitrário, não há o aspecto “divino” da divinação, e o método não é nada mais que uma brincadeira.

Nessa categoria temos o “bem me quer, mal me quer”, o “se a pedra derrubar aquela lata é porque ela me ama”, ou “cara ou coroa – se der cara é porque eu vou conseguir o emprego”.

Os jogos que tem um conjunto fechado de mensagens arbitrárias também nao estao longe disso. Aqui temos o biscoito chinês e os americanos têm a chamada “Magic 8 Ball” que, ao sacudir a bola, te dá uma entre 8 mensagens prévias do tipo “sim”, “é provável”, e “jogue outra vez”.

Outro exemplo é fazer um jogo de 2 dados, com significados arbitrários como (esse método eu peguei do mago MOloch):

03 resultados inesperados mas favoráveis
04 Desapontamentos
05 Algo que você deseja virá para você
06 problemas em assuntos de negócios
07 problemas com fofocas
08 Fortes influencias exteriores
09 Amor, harmonia e reconciliaçao
10 Nascimentos, promoções e novos começos
11 separação de pessoas amadas
12 uma carta de boas notícias
13 resultado infeliz
14 ajuda de amigos ou um conhecido se torna um amigo 
15 cuidado, evite tentações
16 bom sinal para viagens
17 mudança de planos
18 Felicidade e sucesso

A mesma coisa se aplica ao povo que joga I ching da maneira moderna, que é basicamente ler um parágrafo e buscar por sabedoria (sim, os dez mil livros que você leu sobre I ching estão errados, não é assim que se joga na China). Isso não é muito diferente da Magic 8 Ball ou de ler um pedacinho da Bíblia por dia buscando sabedoria. Às vezes isso pode trazer algo útil, mas geralmente a resposta vai ser algo como “o homem que carrega todos os seus ovos numa cesta deve ter medo da grande cegonha vesga”. Alguém pode até achar algo útil aí na sua pergunta sobre crescimento espiritual, mas é pouco provável que responda a algo mais mundano, sobre amor ou se as ações da bolsa vão subir.

Então precisamos procurar atributos que sejam menos arbitrários. Como eu expliquei antes, para mim a melhor maneira é conectar nosso oráculo a uma determinada cosmologia, ou visão ou modelo do universo espiritual, do que atribuir um significado arbitrário para cada número de um dado.

Terceira tentativa – vamos apelar aos números

O segundo problema é que o processo de divinaçao deve ser suficientemente amplo para poder responder a uma grande série de perguntas, e dar uma grande série de respostas. Sistemas de respostas convecionais raramente podem fazer isso.

Bem, a primeira tentativa foi usar uma moeda e chegar a um simples “sim” ou “nao”, como dito acima, isso é bem arbitrário. Mas o pior é que é muito limitado em sua descriçao do mundo. A grande maioria das situaçoes não são limitadas apenas em um sim/não. Há um monte de “talvez”, “mais ou menos” e “depende” no mundo. Isso torna o sistema de cara/coroa muito ruim.

Poderíamos melhorar um pouco sistema, adicionando mais moedas. Assim, por exemplo, se tivéssemos cinco moedas, todas dizendo “sim”, seria um “sim” muito forte, e o resto daria mais um “talvez”, ou “provávelmente sim”.

Apesar de ser uma melhora em relaçao a um simples cara e coroa, e algumas pessoas gostarem pelo espiríto quantitativo de nossa era, eu acho um sistema muito pobre, que apenas “tapa com a peneira” o problema fundamental de falta de um simbolismo mais amplo.

Por exemplo, se transformamos o sistema de sim/nao para um do tipo masculina/feminina, já temos um pouco mais de “margem de manobra”.

Por exemplo, 4 caras, ao invés de representar um “total sim”, pode representar uma situaçao de “energia masculina” que pode ser benéfica para uma questao sobre carreira, e ruim para uma sobre amor.

Quarta tentativa – Cosmologia – eu também quero uma para viver

Bem, então vamos procurar uma “cosmologia” para representar nosso oráculo. Necessitamos um “acima” para representar o nosso “abaixo” para poder formar o famoso “o que está acima é como o que está abaixo”. Uma representaçao material do modelo espiritual.

Vamos usar apenas quatro moedas no nosso exemplo, mas poderíamos ampliar ou diminuir esse número.

Quatro moedas iguais? Nao, melhor quatro diferentes, assim podemos usar elas para representar diferentes coisas. Por exemplo, uma moeda de 10, 25, 50 centavos, e uma de 1 real.

70px-10centavoII 90px-25centavoII 85px-50centavoII_2 100px-1realII_2

Agora vamos atribuir significados a elas. Mesmo que seja um pouco artificial, vamos usar a escala de valores das moedas, para dá-las um significado qualitativo que possa ser útil na maioria das situaçoes. Por exemplo, a moeda de 25c vamos chamar de I, porque vai representar o indivíduo que pergunta. A moeda de 10c pode ser coisas (C)que sao naturalmente inferiores a ela, como subordinados, propriedades, etc. A moeda de 50c vai representar o outro (O), que geralmente vai ser um amigo, inimigo, associado, etc. A moeda de 1R vai representar o que está acima do indivíduo, como por exemplo autoridades, governo, etc (P de poder).

Já temos um mini-sisteminha de divinaçao em nosso oráculo. Vamos supor que a pergunta fosse “vou ganhar uma promoçao”, poderíamos usar a moeda de 25c, I, e ver se ela é cara (+) ou coroa (-). Ganhar uma promoçao é uma pergunta do tipo ativa (+). Entao se o número de moedas for mais ativo, melhor, mas principalmente se as moedas relacionadas ao tema (I e P- poder) forem (+) também. Se nao o forem, poderíamos supor que o Indivíduo nao está fazendo o necessário, porque a moeda I é (-), ou seja, está fraca, ou porque o emprego realmente nao tem uma vaga para promover a pessoa, por exemplo a moeda P está fraca (-).

Ok, já temos um modo de atribuir um tema a cada moeda, e temos uma maneira rudimentar de atribuir força a cada moeda. Vamos complicar um pouquinho mais.

Vamos pegar uma folha de papel, e dividir em quatro partes iguais. A cada parte vamos atribuir a um dos quatro elementos. Por exemplo, as partes de baixo podem ser para os elementos frios, água e terra, a parte de cima para os elementos quentes, fogo e ar. Agora vamos jogar as moedas sobre a folha e ver onde elas caem.

Vamos supor que uma moeda de 25c (I) caiu no quadrante de fogo. Entao o indivíduo está representado por fogo. Pode ser que ele esteja impulsivo, ativo, explosivo, dinâmico. Se a qualidade do elemento é expressa de  maneira positiva ou negativa poderia depender da moeda ser (+) ou (-). Se a moeda está no quadrante de água, que é naturalmente (-), mas a moeda está na modalidade (+), entao o individuo (I) expressará as qualidas mais negativas do elemento água.

Isso também estabelece relaçoes entre as moedas. Vamos supor que a moeda (I) caiu no quadrante de terra. Qualquer moeda que caia no quadrante de ar será inimiga da moeda (I) e trabalhará no seu contra. 

Um exemplo poderia ser algo como “vamos namorar?”, quer seria uma pergunta (-)

E o resultado das moedas:

10c (C) – (+) água

25 c (I) – (-) terra

50c (O) – (+) água

1R (P) – (-) ar

Daí teríamos o seguinte: nosso foco principal seria nas moedas I e O, representando o casal, respectivamente. I é (-) numa pergunta (-) entao tem força, está seguro do que quer e pode conseguir. Seu ambiente é terra, que é naturalmente (-). Ou seja, tem força para conseguir o que quer e tem uma boa qualidade.

Já O é (+) numa pergunta (-). Talvez nao esteja tao interessado, está preocupado com suas próprias coisas, etc. Além disso, está num elemento contrário (já que água é passiva). Nada bom, provavelmente é uma pessoa problemática, apresentando os defeitos do elemento água, por exemplo preguiça e excesso de emocionalismo.

Agora vemos que a moeda P, de poder. Como ela é de ar, ela é contrária a moeda I, de terra. Ela é uma moeda (-) num elemento (+), ou seja, ela é de má qualidade. Uma moeda de má qualidade num elemento inimigo é a pior situaçao possível. Talvez represente que o pai da outra pessoa (P) vai estar contra o relacionamento.

E é isso. Antes que “viajemos” mais ainda, espero que dê para entender quando eu digo que as regras oraculares nao sao totalmente arbitrárias, pois o seu simbolismo representa um macro-cosmo.

E, depois de tudo isso, das regras e postulados estarem prontos, agora é que entraria a parte de jogar mesmo, e ver quais sao as regras que surgem, como discuti no artigo sobre Emergencia.

As regras por, mais arbitrárias que possam parecer, desde que unidas a esse macro-cosmo, quando forem aplicadas ao nosso micro-cosmo material, abrirá caminho para as regras emergirem. Esse, afinal de contas, é o aspecto divino da “divinaçao”.

Por exemplo, poderia surgir uma regra de que se todas as moedas forem (+), num elemento (+), mas a pergunta for (-), mesmo assim a resposta será sempre um “sim”, etc. Sao as regras que nao tem nada de natural nelas e que só se percebe com a prática.

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