Aforismos

Posted on 4 de agosto de 2009

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Ontem me perguntaram se devemos confiar nos aforismos, então resolvi escrever algo a respeito.

Para quem não sabe os aforismos são pequenas peças de interpretação que foram deixadas pelos antigos. Em geral são no formato se-então, por exemplo: “quando mercúrio estiver no signo de escorpião, o nativo matará a própria mãe”, mas claro, estou exagerando um pouco.

O que precisamos saber antes de querer aplicar os aforimos.

Linguagem e  estilística

Muitos modernos lêem os aforimos e acham que são resultado daquela época de pensamento bárbaro, onde não havia o pensamento new age. Muito longe disso. O problema principal com os aforismos é de estilistica.

Hoje em dia, nos livros, o estilo de escrita é altamente condicional. Coloca-se uma série de modalizadores para indicar graus de incerteza, inexatitude, tendência, etc.

Então ao invés de dizer:

“Pessoas com marte em oposição a plutão são violentas”

O astrólogo moderno vai escrever exatamente a mesma coisa com uma série de modalizadores:

“Dependendo das circunstâncias sociais e do meio onde a pessoa vive, se ela tiver marte em oposição a plutão ela terá uma tendência a manifestar seus sentimentos de maneira que pode ser considerada pelos outros como violenta”.

A informação é a mesma, o resto é um pouco de adubo para não chocar ou ofender as possíveis pessoas com marte em oposição a plutão e que nunca machucaram uma flor.

A estilística antiga

O estilo dos antigos era bem diferente. Ao invés de minimizar, eles tentavam maximizar o sentido da configuraçã0, exagerar até um ponto máximo, quase absurdo, mas que ficasse tão claro que até o estudante mais bruto memorizaria o exemplo.

Então vamos supor que, em nosso exemplo inicial:

“quando mercúrio estiver no signo de escorpião, o nativo matará a própria mãe” (note que estou inventando isso!)

Na verdade é mais um exagero estilístico. O autor nao quer realmente dizer que o nativo está destinado ao matricídio. Ele quer dizer algo como “o nativo será violento”. Ou “o nativo será violento com seus familiares”. Mas ele coloca o caso mais forte, memorável, ilustrativo.

Então ao invés de dizer que o nativo será promíscuo, o autor geralmente diz algo mais reluzente como “se deitará com suas irmãs e todas as prostitutas que encontrar, com animais de fazenda e com toda criatura que encontrar”.

Alguns dos antigos tinham um certo gosto para o drama.

Aforismos e “receitas de bolo”

A maior parte dos livros que se encontra hoje em dia de astrologia não passam de “receita de bolo”. Nos primeiros dois capítulos se explica rapidamente signo, elemento, planeta e casa. As outras 100 páginas são de uma listagem de

– sol na primeira casa, sol na segunda casa, sol na…

– mercúrio em virgem, mercúrio em libra, mercúrio em…

– urano em quadratura com sol, urano em quadratura com lua…

e no final se termina com duas páginas um mini-caso analisado mal e porcamente. E depois se reclama que os astrólogos não sabem “sintetizar”, esse mundo de palavreado desconexo.

Note que o objetivo do aforismo Não era o mesmo desses livros de receita de bolo astrológico!

Se esperava que o leitor tivesse um professor que o orientasse, e que o ensinasse astrologia. O livro mesmo (e deve-se lembrar a dificuldade que era conseguir um livro) era usado como referência.

Imagine o caso de um médico hoje em dia. Na faculdade ele aprende a teoria, na residência aprende os procedimentos e a fazer um diagnóstico. Depois que ele já sabe diagnosticar, ele vai no congresso ouvir um estudo de caso exemplificando uma condição extrema.

Com o astrólogo era a mesma coisa. Você supõe que a pessoa já sabe mais ou menos delinear uma carta. Você não precisa explicar cada ponto. Agora que ela já sabe fazer um diagnóstico, você aponta alguns casos especiais que são importantes sempre ter em mente!

Quando devo usar o aforismo?

Acho que o primeiro critério é que ele faça sentido!

No caso que eu inventei sobre escorpiao e mercúrio, não tem nenhuma teoria ou explicação. Mercúrio nunca foi o significador natural de violência Se não faz sentido para você, reserve. Ele pode fazer sentido depois.

Por exemplo algo como “venus e mercúrio em conjunção na casa 6, a pessoa se envolverá com escravos”, pode não fazer sentido ao princípio, mas depois você entender que mercúrio era o significador natural de escravos.

Depois disso você tem que pensar em como isso se adapta na sociedade moderna. Eu interpretaria como “a pessoa se envolverá com pessoas de classe social mais baixa que a sua”.

E só aí que acho que vale a pena tentar procurar cartas que se encaixem no aforismo. Não acho uma boa partir da “análise empírica”, porque o empirismo é  uma metodologia muito fraca em astrologia.

Ao invés de tentar “provar se o aforismo funciona”, e vendo se pessoas com mercúrio com venus casam com escravos, é muito mais interessante entender o porquê, qual o motivo ou lógica que levou o autor a dizer isso: na minha experiência é aí que está o maior aprendizado dos aforismos!

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