Talismã de pobre, talismã de rico

Posted on 24 de janeiro de 2011

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De toda magia astrológica, tem uma parte que impressiona: os talismãs. E de preferência os caros. Se um talismã for bom, é óbvio que um de ouro, como o da foto acima, deve ser melhor!

Na verdade, como diz o ditado nem tudo que brilha é ouro.

É óbvio que um talismã todo de ouro impressiona. Ouro sempre é bonito. Além do mais, as fontes tradicionais falam para fazer os talismãs com ouro, nada errado nisso. Mas a pergunta é “tem que ser feito de ouro?”

Obviamente não.

A magia nasceu dos pobres e da pobreza. Os ricos sempre condenaram a magia, ou estavam muito ocupados contando seu dinheiro para acreditar nela. Magia sempre foi praticada nas senzalas, nos guetos, nas florestas e nas cabanas.

Escravos sendo arrancados de suas casas e viajando para outro continente, onde ninguém fala sua língua, as plantas e até os animais são diferentes, tendo que rapidamente re-inventar suas práticas. Quando a planta que você usava para curar não existe onde você se mudou, o que usar? Provavelmente o que estiver à mão.

Eu gostaria de ter um talismã todo de ouro, para ter ele num altar. Claro! Mas ele funcionaria melhor do que um de madeira? Duvidoso. Recentemente eu comprei uma estátua de Ganesha. A de bronze era de 400 reais, eu achei uma de resina por 50. É uma estátua grande, bonita, e bem feita, será que eu gastasse mais eu teria “um ganesha melhor”? Acho duvidoso.

Minha reflexão é que tem um ponto onde o misticismo esbarra no consumismo e até mesmo na decoração de interiores! Muita gente não acredita em ganesha, mas está disposta a comprar uma estátua de 2 mil reais porque acha “exótico” e completa o tema oriental da sala de visitas.

Mas pergunte a um devoto de Ganesha e ele vai dizer que, muito mais importante do que ter uma estátua, é ter uma prática frequente de recitação dos mantras e de oferendas ao deus.

O talismã como networking

Outro aspecto do consumismo que é muito importante notar é que os talismãs não são “pílulas”: tenho um problema de saúde, tomo um talismã do sol e pronto. Problemas de emprego? Use esse talismã de Júpiter e me chame em duas semanas. soluções prontas, tome uma vez, problema resolvido.

Eles são mais como um cartão de visitas.

Uma pílula supostamente resolve seu problema (quando não cria outros). Um cartão de visitas é uma possibilidade de contato. Você tem o número de telefone do Gilberto Dimenstein (curiosamente eu tinha, mas nunca me deu proveito nenhum, então acho que é um mal exemplo), do Lula, do presidente da Catho, do diretor financeiro da Petrobrás. A diferença é que se um estranho ligar para o telefone deles, eles não vão gostar. Mas um talismã é não apenas um número, mas também como uma recomendação. Eles têm que prestar atenção.

Então você tem o número de celular para as 7 forças básicas e primais do universo. Trabalho pronto, não?

Nem tanto. Como você pode ler em qualquer revista de cabeleireiro, é importante fazer o “networking”. Cultivar o contato semanalmente. Dar um presentinho (acender uma vela ou incenso). Elogiar de vez em quando.

Nem tudo é astrologia.

Outro problema que eu colocaria é que, embora a astrologia seja importante em quase todo sistema de magia, ela não é o centro e o todo. Há vários espíritos e deuses, e a maioria deles não pode e nem deve ser “encaixado” astrologicamente. Mesmo os deuses que estão diretamente ligados, como Hermes, não podem ser restringidos apenas aos aspectos do planeta mercúrio! Por isso que o povo que diz que está “estudando mitologia para entender astrologia” está tão errado. Os atributos do deus Zeus são extremamente diferentes dos do planeta Júpiter.

Assim, esse cuidado de não atribuir qualidades que os espíritos não tem. Há muitos sistemas de magia que não estão ligados à astrologia, e é errado tentar forçar uma coisa na outra.

Talismã de pobre

Talismãs como aparecem em Agrippa parecem sofisticados. Os talismãs que aparecem no Picatrix são complicados e detalhados. Os da chave de Salomão são até ameaçadores, necessitando de preces específicas, rituais e materiais.

E também existe um capítulo em Agrippa, chamado “Magia Natural”. Que não é nada mais do que a velha simpatia. Magia de pobre.

Nada de grandes recitações em Latim, apenas um padre-nosso repetido vinte vezes.

Nada de talismãs de ouro, mas algumas ervas, uma vela, um ovo, um imã, uma pedra, etc.

E funciona. Fundir um talismã de cobre e colocar o signo, nome e número dos espíritos de vênus é uma abordagem. Outra abordagem é usar elementos em que vênus já está naturalmente incorporado: uma rosa, mel, açúcar, um poema de amor, coraçãozinho… são coisas que naturalmente correspondem a vênus e facilmente incorporam e atraem aos espíritos de vênus.

Garrafa de Júpiter

Ao invés de um grande talismã de Júpiter, grandiloquente, já pensou em fazer uma Garrafa de Júpiter? Ou uma caixa de Júpiter? Alguns ingredientes sugeridos….

  • O símbolo de Júpiter e da inteligência de Júpiter.
  • açúcar, mel (cuidado com baratas e formigas, obviamente)
  • um imã para atrair dinheiro.
  • “ouro dos trouxas”, pepitas, etc.
  • moedas, geralmente 13.
  • Algumas ervas, várias de cozinha, como lentilhas, canela, louro…
  • Um plano com seus objetivos financeiros para o ano
  • Para outras idéias, veja essa garrafa do sucesso.

Nota

Esse post não foi para dizer que uma abordagem não funciona, ou que uma é melhor do que a outra, mas sim de que há diversas formas de se chegar à Roma.