Os pontos não importam

Posted on 19 de novembro de 2012

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Bem vindos a Whose line is it anyway, o show onde tudo é inventado e os pontos nao importam.

Drew Carey

Como um fa de whose line, eu gostaria de usar o lema de Drew Carey: os pontos não importam. Em whose line, Drew geralmente distribuia 1000 pontos aleatoriamente, mas muitas vezes distribuía 5000, retirava pontos por alguma piada contra ele, mas como ele mesmo dizia, no final ele escolheria o “ganhador”de acordo com seu desejo (na verdade, dependendo da composição do jogo final).

Como assim os pontos não importam? Todo ocidente se baseia na ideia de números e de contar. Os árabes eram fascinados pelo poder que a aritmética lhes deu. A psicologia behaviorista nasceu toda da ideia de comportamentos observáveis e quantificáveis. Como diria Peter Drucker, da administração, o que é mensurado é gerido.

Mas a verdade é que, para a grande maioria das coisas, os pontos não importam.

A Racionalidade

O ocidente adora a racionalidade. Se algo é feito de maneira racional é bom, se não é mau, é ilógico, como diria senhor Spock. Por isso temos disciplinas como a ética tentando racionalizar até o comportamento moral.

Em uma matéria interessante que fiz sobre sustentabilidade no Coursera, o professor perguntava “se vamos defender o direito de um tigre de existir intrinsícamente (ou seja, não pelas coisas que podemos obter do tigre – como o turismo), isso quer dizer que também defenderíamos o direito de espécies daninhas ao ser humano? E a peste negra ou a varíola?”

Esse tipo de discussão geralmente parece “profunda” porque dentro do paradigma da racionalidade, TODOS os casos, por mais excêntricos que sejam, tem que ser justificados dentro de uma mesma régua. Já no mundo real, ninguém está defendendo o direito da peste negra de existir. Daí o professor universitário vai reclamar que as pessoas estão sendo emotivas, irracionais e blá, blá, blá. Se vamos ser racionais, então o ser humano só pode existir como predador, e toda a questão de “direitos” ou de “valor intrínseco” sequer podem existir.

Decisões

outro campo onde pontos são adorados é na decisão. Há vários sistemas de decisão, incluindo certos tipos de analise baseados em baynes, que são total e absolutamente inúteis. Pegue centenas de especialistas, tire a media de suas opiniões sobre a inflação e chegue num numero completamente fora do que realmente acontecerá.

Um exemplo prático desse tipo de método: imagine que você quer comprar uma casa. Faca uma lista de todos os fatores importantes para você (exemplo, numero de quartos, banheiros, garagem, piscina, jardim). Agora para cada imóvel que você visitar, você marcará com um X se a casa atende um fator, e depois dará pontos para cada casa.

Agora teste o método para qualquer coisa que você está em dúvida sobre qual comprar (roupas, eletrodomésticos, etc) e veja como frequentemente mostrará como ganhador um item que você não tem a menor intenção de comprar. Mas essa é a decisão “racional”entao o que fazer…

Os pontos não importam: Dignidades

Há cinco dignidades em astrologia tradicional (se você veio direto da astrologia moderna, sem ter lido as matérias anteriores, provavelmente nunca ouviu falar delas, e ainda deve ter aprendido as outras errado, então vá e procure no histórico): regência, exaltação, triplicidade, termos e decanos. Há também outras distribuições ainda menos conhecidas como dodekatemoria e monomoria, mas vamos ficar com as cinco principais.

A ordem das dignidades mostra sua importância, isso nunca foi discutido. O que acontece é que para alguns casos, algumas dignidades são mais importantes. Por exemplo, em coisas que indicam força e poder, como nas competições esportivas, a exaltação é a mais importante. Em certos usos, como do hyleg, termos podem ser os mais importantes.

Mas, quando começamos a nos preocupar com pontos, o que acontece? de repente, a regência “ganha” 5 pontos, a exaltação “ganha 4 pontos@ etc… Mas será que esses pontos realmente importam, ou Drew Carey está certo?

Variáveis ordinais e quantitativas

Os números tem propriedades, mas nem sempre estamos interessados em todas as suas propriedades ao mesmo tempo. Por exemplo, em certos momentos não usamos fraçoes, em outros não faz sentido usar números negativos (por exemplo quando falamos sobre altura ou peso).

quando usamos números “ordinais” isso significa que apenas estamos preocupados com sua ordem relativa. Por exemplo 1-peso normal, 2-sobrepeso, 3 – obeso. Ou 1- ensino fundamental, 2-ensino superior e 3- pós graduação.

Isso NAO significa que o número 4 seja duas vezes superior ao número 2, como seria em aritmética básica. Um dos problemas básicos de testes psicológicos atualmente é que variáveis ordinais (exemplo na escala de Likert’ de discorda totalmente até concorda totalmente), são coletadas e depois tratadas como variáveis quantitativas (somando, tirando média, etc).

E, obviamente, os astrólogos fizeram exatamente isso séculos atrás, bem antes dos artigos científicos.

Almutens

Os almutens, sendo o mais conhecido deles o Figuris, são calculados de acordo com a seguinte lógica: os 5 pontos de uma regência podem ser somados com os 3 pontos de outra e os 2 de outra e se conseguir um planeta que tenha o maior número de pontos, em uma eleição democrática.

Há vários motivos por que isso é falso. Vamos olhar algumas metáforas abaixo, pois já explicamos a parte filosófica dos números.

Hierarquia: números ordinais mostram hierarquia, e as propriedades quantitativas não se aplicam. Como no exemplo de John Frawley: “quando um capitão e um sargento discordam do general, você não soma as patentes dos dois menores e vê quem ganha… os dois menores simplesmente obedecem o general e pronto”

opiniões: Imagine que num questionário sobre onde morar, você assinala que gostaria muito de morar no norte da cidade (5) porque é uma região arborizada. Agora imagine que, no mesmo questionário, você diz que também gostaria de viver no sul (região com muito transporte). Voce não pode tirar a media das duas opiniões e dizer que a pessoa gostaria de viver no centro da cidade.

Valores desproporcionais. Muitas coisas na vida tem comportamentos não lineares, ou percolativo. Um real a mais ganha o leilão. Um pouquinho mais de voltagem queima o sistema. A palha quebra as costas do camelo. Um pouco a menos de antibiótico não cura a infecção.

Por exemplo, se  tomar uma pílula a cada 8 horas vai te salvar, tomar 2 pilulas a cada 16 horas provavelmente vai te causar uma infecção resistente a antibióticos.

Moral da historia

A vida nao é linear. Muitas coisas podem ser quantificaveis, mas muitas vezes nao deviam.

Pense na pessoa que está obcessivamente medindo suas calorias e o peso na balança, ao invés de se preocupar com outros números muito mais importantes, como nível de colesterol, tamanho da barriga, e sua própria disposição e energia subjetivas para viver.

Moral astrológica

Os pontos não importam. Veja qualitativamente as dignidades e que planetas tem direito sobre um tema. Use seu julgamento. Nao é uma equação e não será resolvida por números.

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