Deus nao é virginiano

Posted on 21 de julho de 2013

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Uma das frases do astrólogo John Frawley que eu mais gosto é a que está no título “Deus não é um virginiano”.

Claro que, antes que algum paraquedista salte na discussão, ele é tradicional então não usa a técnica new age dos signos solares dos horóscopos de jornal. É apenas a piada interna dele de que você não consegue mais informação aumentando o nível de detalhe.

Essa é uma lição importante em várias áreas da vida, não apenas na astrologia.

Princípio de Pareto e exercício e dietas

Talvez você já tenha ouvido do princípio de Pareto. É também chamado de princípio 20/80. Os 20% principais de algo trazem 80% do resultado. Por exemplo:

  • Os mais ricos concentram a maior parte da riqueza
  • As 1000 palavras mais importantes do vernáculo constituem o grosso de todas as palavras usadas no cotidiano.
  • Os clientes mais chatos da sua empresa constituem uma minoria responsável pelo grosso dos problemas.
  • 3 ou 4 ações principais (por exemplo, não comer um doce todo dia) são responsáveis pelo resultado, e não uma série de coisinhas pequenas que as pessoas gostam de se obsessionar (será que se eu não comer o café da manha vou engordar?)

O princípio de pareto se torna vital hoje em dia porque estamos em uma sociedade de excesso de falsa informação e que pior, confunde informação com conhecimento. Isso faz com que qualquer coisa que você queira fazer pareca mais “científica se for arbitrariamente complicada.

  • “Coma duas uvas antes do café e perderá três quilos por semana”.
  • Faça exercício sem comer nada”
  • Nunca faça exercício sem comer nada
  • Tome suco de caju com melão na quinta, mas nunca na sexta.

Quanto maior o nível de detalhes, mais parece que estamos sendo muito inteligentes, mas na verdade estamos nos separando do essencial. O essencial é coma um pouco menos, mas não muito menos, coma um pouco melhor, mas também sem começar a sentir que está virando um monge. O resto, frequência de alimentação, proporção de macro nutrientes, ingredientes específicos e índices glicêmicos, vão numa escala de importância rapidamente decrescente. Se dúvida, falsa uma pesquisa em sua academia. Aposto que metade não come carboidratos a noite, e a outra metade só come carboidratos a noite. Metade se intoxica de proteína e a outra metade está cortando glúten e a terceira metade está fazendo Paleo…

A neurose das nutricionistas de TV e porque é melhor simplesmente usar a dieta dos pontos

Vejamos o exemplo da nutricionista da TV. A mulher tem coragem de dizer que uma fatia de Panetone tem 312 calorias. Note, não 311, nem 313. Isso porque obviamente todo mundo corta as fatias do mesmo tamanho.

A ilusão de precisão é um dos tormentos da vida moderna. É por isso que a bolsa de valores salta 20% todos os dias. ë por isso que as pessoas se pesam 5 vezes por dia. E é por isso que nutricionistas dão o conteúdo calórico de algo que pode na verdade ter a metade do valor, ou 3 vezes.

Eu descobri isso na prática quando calculei minhas calorias diárias. O valor “recomendado” podia variar enormemente – eu posso comer entre 1800 e 2800 calorias dependendo de para quem eu pergunte. E o simples arroz de todo dia pode ter entre 150 calorias e 600 dependendo do modo de preparação.

Resumindo: ninguém sabe quantas calorias come ou quantas precisa comer.

Conselho: se você quer perder peso, e não está tao interessado na astrologia, meu conselho é que use as heurísticas mais simples como a dieta dos pontos. Aqui o importante é simplificar e não ter precisão. Precisão de coisas sem exatidão (ou seja, que estão erradas) é pior que ilusão, é um inimigo.

Astrologia como código BASIC (ou C)

Lá pelos 90, nós astrólogos tradicionais, pessoas muitas vezes de áreas mais intelectuais, rejeitamos os princípios do new age e nos voltamos para a tradição. Mas nisso também trouxemos hábitos e preconceitos da modernidade.

  • A ideia de precisão –  mesmo que o número seja absurdo, ele parece verdadeiro porque tem cinco casas decimais
  • A ideia de detalhe – como discutimos acima, quanto mais neuroticamente detalhado é algo, mais inteligente deve ser. Se funciona para física dos materiais, deve servir para astrologia.

Nessa época as pessoas se encantaram com a ideia da astrologia como um código de programação, cheios de Se… Então, Loops e cláusulas condicionais.

Para quem não sabe nada de programação, era uma coisa mais ou menos assim:

Alunos do Robert Zoller faziam coisas como:

Para achar o significador financeiro.

  • Olhe o regente da casa 2. Se ele estiver em bom estado, ele é o significador financeiro. Se não, passe adiante.
  • Olhe o regente da fortuna. Se ele estiver em bom estado, ele é o significador financeiro. Se não, passe adiante
  •  Olhe o regente da parte da acumulação e dinheiro. Se ele estiver em bom estado, ele é o significador financeiro. Se não, passe adiante.
  • Use Júpiter.

Método muito elegante, com um problema: com 7 planetas tradicionais apenas, geralmente temos apenas UM planeta em “bom estado” que tinha que acumular todas as funções possíveis para todo tipo de análise.

Ou no caso do Hyleg:

  • Veja o sol durante o dia e a lua durante a noite
  • Se o anterior estiver nas casas 1, 4, 5, 7, 9, 10, 11, ele é hyleg
  • se não use o outro
  • Se nem o sol nem a lua forem hyleg
  • Se o SAN for conjuncional (não importa o que é isso no momento, siga comigo por favor) use o ascendente
  • Se o SAN for prevencional, use fortuna.
  • Sol pode ser hyleg na casa 9 apenas se o signo for masculino
  • Lua pode ser hyleg na casa 3 em qualquer signo.
  • O sol não pode ser hyleg se estiver em libra, e a lua não pode ser em capricórnio.

E essa é minha versão resumida! Muito elegante, complicada, e gerou infinitas discussões pela internet, mas muito pouca coisa de útil ficou de todos esses cálculos. Por exemplo, ninguém sabia exatamente o que fazer com o tal do hyleg…

O problema com almutens e alchocodens

Eu já tratei desse problema em Os números não importam. Se você não sabe o que é almutem, leia o artigo.

Ë o mesmo caso: para muita gente parecia hiper chique calcular uma tabela em excel de todas as dignidades possíveis, somar os pontos e dizer que o significador da saúde era tal porque recebia 3 pontos de termos e isso vencia o outro que só tinha 2 pontos de face…

Mas na prática nada disso funciona. Deus não calcula cada mínimo ponto, e os pontos não importam, como diria Drew Carey.

“Dando uma zoiada” pela carta, e olhando que 3 ou 4 dos planetas estão todos aspectando o mesmo planeta, ou em signos dele, geralmente é muito mais eficiente. A precisão geralmente entra no caminho da eficiência.

O segundo problema é o dos alchocodens. Para quem não sabe, os alchocodens são os planetas que dão a “Expectativa de vida”.

Isso vai dizer quando eu vou morrer? Nao, é uma técnica de “zoiada” que permite com uma olhada rápida na carta dizer quantos anos “em geral” você tem antes de ficar “velho”, ou seja, com menos vitalidade, e problemas típicos de saúde. Algumas pessoas ficam mais velhas mais rapidamente.

O que aconteceu? Ao invés de ser uma técnica de “lá pelos” (você vai começar a sentir a velhice lá pelos 60). Virou uma técnica de “você vai morrer aos 60,325 anos”. Nao só pode se usar os anos do alchocoden mas adicionar e reduzir baseados em aspectos com outros planetas… mas espere, vamos também qualificar esses outros planetas, porque afinal, um trígono de júpiter em capricórnio não pode adicionar tantos anos assim…

Então repentinamente a pessoas está gastando horas para calcular muito precisamente o que devia ser apenas o indicador geralzão…

Em resumo

Nao deixe a ilusão da precisão atrapalhar sua astrologia.

Astrologia, como dietas, não é o lugar para calcular casas decimais. Voce pode medir o que está comendo usando o tamanho da palma da mão. Se você não pode ver que um planeta tenha grande domínio sobre o assunto só olhando para o mapa, então provavelmente qualquer informação de uma tabela está errada.

Qualquer técnica que prometa dar a “resposta definitiva” só a partir dela está mentindo. Nao existe santo graal. O que fazemos é usar uma série de técnicas “grosseiras” mas confiáveis (o que chamaríamos de “robustas” em estatística). E quando temos uma boa soma de indicadores damos um julgamento. Quando não temos, não podemos forçar nada, pode ser que sim ou que não.

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