episthemologie

Maus conselhos em astrologia eletiva

13 Outubro, 2009 · 9 Comentários

Cuidado que está cheio de mau conselho por aí, disfarcado de “sabedoria astrológica”.

Ainda em férias, queria fazer um simples post sobre alguns péssimos conselhos em astrologia eletiva que eu vejo por aí. Sao coisas que nao apenas nao funcionam, mas nao tem nem lógica e nem praticidade, e geralmente mostram apenas que o “conselheiro” nunca usou seus próprios conselhos na prática.

Leia os problemas abaixo e note que a raiz dos problemas é simplesmente nao saber colocar os diversos fatores desejáveis em prioridade, confundindo o que é “desejável” com o que é “necessário”.

1 -”Para iniciar algo, sempre use a fase crescente da lua”.

Acho que esse é o conselho mais repetido na astrologia eletiva. Voce quer iniciar algo, lua crescente. Quer “expulsar” algo, use a fase minguante.

Ora, com excecao de dietas e eletivas para parar de fumar, a grande maioria das nossas eletivas é para início. Quer dizer que de uma única cachetada voce tirou metade de todos os dias do ano!

Em cada mes lunar de 29 dias, voce tirou uns 15. Se tirarmos também os dias em que a lua está em oposicao ou quadratura ao sol, tire mais uns 3-4 dias. No total, voce terá uns 12 dias por mes para fazer qualquer eletiva.

Na prática o que fazer:  voce nao comecará por esse brilhante conselho. Apenas tente evitar a parte depois do último sextil entre sol e lua, minguante, porque dai a lua além de tudo terá muito pouca luz. A simbologia da lua de “estar no final do ciclo” comeca a ficar muito forte. Mas de resto, nao é o procedimento correto iniciar por algo que é tao limitante!

2- Se voce vai iniciar um projeto durante o dia, coloque o sol e a lua em signos masculinos.

Se a memória nao me falha, esse era um conselho do astrólogo renascentista Morin. Também nao faz sentido.

90% de todas as eletivas acontecem durante o dia. Por mais que seu novo chefe goste de voce, nao é provável que ele deixe que voce assuma seu posto as 9 da noite. Ou que voce possa abrir sua padaria as duas da madrugada. Entao vamos analisar apenas a hipótese diurna, mas Morin também dizia que se o seu projeto comecasse durante a noite, que voce colocasse o sol e a lua em signos femininos.

Ora, o sol e a lua ficam em signos masculinos pela metade do tempo. Os dois juntos só ficam em signos masculinos um quarto do tempo! Novamente, de uma única machadada, se foi dois tercos do ano, junto com todas as possíveis configuracoes maravilhosas que poderia haver.

O sol principalmente é chato, já que ele demora um mes para mudar de signo.

O erro, novamente, é colocar um fator que deveria ser secundário, como sendo o principal. “olha, se possível, tenta colocar o sol e a lua em signos masculinos”. E em 90% das vezes a resposta será “nao dá”.

Na prática o que fazer: sugiro ignorar totalmente essa regra. Sequer faz sentido, porque a lua tem sua afinidade com signos femininos.

3- Coloque o Maléfico diurno ou noturno em signos cadentes.

Essa regra é ainda menos conhecida, só usada pela safra de “novos helenisticos” que está surgindo com grande estrondo, mas que parece ter muito pouco cuidado com a consistencia.

Para entender… na astrologia há os maléficos essenciais (marte e saturno),  que ficariam ainda mais perigosos dependendo de ser dia e noite. Marte, segundo os novos helenistas, estaria particularmente perigoso durante o dia, e saturno durante a noite.

Como foi dito acima, 90% de nossas eletivas serao durante  o dia, marte será sempre o maléfico a ser evitado. Entao sempre colocaremos marte em casas cadentes.

Novamente, grande erro…. a história de marte ser o “Grande maléfico” em cartas diurnas é um modismo do qual nao vi nenhuma confirmacao em cartas horárias e natais. Uma simples busca em cartas horárias confirma que um marte em cancer é muito mais perigoso do que marte diurno, e esse fato chega a ser totalmente desprezado por alguns defensores, como a tradutora de Paulus, Dorian Greembaun.

Mas o erro em eletiva nao vem disso…. vamos supor que marte realmente seja o fator essencial para se evitar numa carta diurna. Quando voce faz isso (e considerando que os novos helenistas usam signos inteiros) de uma machadada voce tirou 10 dos 12 possíveis signos para o ascendente!

Por exemplo, marte está atualmente em cancer. Para eu colocar marte numa casa cadente, eu tenho necessariamente que colocar no ascendente o signo de escorpiao (e marte ficaria na casa 9) ou o signo de sagitario ( para ele ficar na casa 6). Fora isso, ou ele ficaria nao-cadente, ou já seria noite.

Reduzir de 12 signos para 2 em apenas uma machadada, por um único fator, para mim representa que esse fator é EXTRAORDINARIAMENTE importante. E eu realmente nao creio que só pelo fato de marte ser diurno garanta esse poder todo.

Um adendo é que alguns dos novos helenistas também insistem em colocar a parte da fortuna num angulo. Ora, a única maneira de fazer isso é ter o sol e a lua formando aspectos de quadratura ou oposicao, e como já mencionamos antes, um dos primeiros principios da eletiva é justamente tentar evitar isso!

Na prática, o que fazer: ignore, a nao ser que marte esteja em estado realmente horrível, como agora que ele está em cancer, e ele está afligindo um luminar, sol ou lua, e voce nao pode esperar mais alguns dias. Mas na prática, os contatos dos luminares com marte e saturno devem ser evitados, seja a carta diurna ou noturna.

Coloque todos os regentes em bom estado

Leitores apressados de Ramesey gostam de dar conselhos do tipo “coloque os regentes em dignidades”. Uau, ótimo conselho…. o único problema é que eles também aconselham uma série de regentes para cada coisa. Por exemplo, para um casamento, vamos usar o regente da 1 para o noivo, da 7 para a noiva, da 5 para o amor e filhos, da 4 para a nova casa, da 10 para o “sucesso” do casamento, a 6 para Totó, a 2 para o “dinheiro do casamento”, a 3 para que tenham “uma boa comunicacao”, etc, etc.

Leitores menos apressados sabem que esse tipo de situacao nao acontece nunca. Quando voce tem dois planetas em bom estado e unidos por um trígono, voce geralmente já cai de joelhos orando gracas.

Outro conselho terrível derivado dos leitores mais apressados é a crenca de que, se um casal casar num mal momento, duas pessoas jovens e cheias de fertilidade, repentinamente nao poderao ter filhos porque “o regente da casa 5 está em mal estado” o que viola o princípio da realidade.

Na prática o que fazer: Evite as pseudo-minúncias… por exemplo numa carta eletiva de viagem dizer que “A casa 2 é o dinheiro da viagem” está a beirar o desvario. Se voce casar com marte na casa 6, isso nao vai matar ao Totó. Totó nao aparece na sua carta de casamento, e nao temos motivo para colocá-lo lá.

Um exemplo real foi da pessoa que queria vender uma casa rapidamente, e eu sugeri um dia em que a lua estava se movimentando rapidamente, num signo cardinal. Isso porque o homem estava totalmente paralizado preocupado se o regente do dinheiro dos compradores ia afligir ou nao o dinheiro da sua sogra, e ver se o corretor de imóveis ia bem com seu cachorro…

Conselho principal em astrologia eletiva – lembre-se que sua missao NAO é “escolher o melhor momento”. Sua missao é tentar evitar os desastres e a partir dai qualquer coisa é lucro.

→ 9 ComentáriosCategorias: Eletiva · Temas Avançados · astrology

Signos e casas

22 Setembro, 2009 · 18 Comentários

“Boa tarde Yuzuru! Desculpa a minha ignorancia mas eu tô com uma dúvida beeeeeeem de principiante mesmo> É o seguinte: por que nos mapas em geral os signos e as casas não ficam “encaixadinhos” um no outro????? Geralmente se fala do “signo que está na cúspide da casa tal”, aí a gente vai ver e o signo só ocupa, por exemplo, até o 8º grau da casa e daí começa outro. Quando se fala em signos interceptados, o signo fica “preso” dentro de uma casa, mas não é deixado explicito se os outros também estão…. enfim por que essas diferenças de “tamanho” entre uma coisa e outra?????????????
Poderia me tirar essa dúvida?”

Antes de tudo, avisar que estou escrevendo em viagem, ou seja, adeus aos sinais de pontuacao!

Bem, o problema aqui é relembrar a definicao de casas x signos, entender seu contexto histórico e as diferentes filosofias que elas implicam.

Signos inteiros e os topoi

A primeira coisa a saber é que os signos sao originados da astrologia grega, mas com raizes na babilonia e talvez egipcio. Nao é correto dizer, como muitos fazem, que os signos sao babilonicos… os babilonicos usavam constelacoes, e nao signos (muita gente, infelizmente, nao sabe a diferenca, mas quer brincar de ser astrologo…), e aparentemente usavam 15-17 constelacoes mais importantes.

Os egipcios aparentemente usavam um sistema que deu origem aos decanos. Mas qualquer coisa que se diga a respeito é provavelmente só especulacao e auto-engano.

Entre outras inovacoes, os gregos criaram um sistema de topoi, ou temas especificos. Alem dos temas normalmente atribuidos aos planetas (por exemplo amor e amizades para venus, filhos e riquezas para jupiter, etc), também havia a distribuicao de temas especificos para os signos, contados a partir do ascendente. Assim, se o ascendente estivesse em gemeos, todo o signo de gemeos teria associacao com o tema do corpo físico. Cancer sendo o segundo signo teria analogia com dinheiro, etc.

Note que nunca, em momento algum da astrologia, houve a picaretagem que hoje se conhece como “zodiaco natural”, ou como era mais conhecido, o “alfabeto astrologico”: nunca houve nenhuma “associacao natural” de aries com a primeira casa, touro com a segunda, e nem o significado das casas teve absolutamente nenhum significado a partir dos signos. Isso é uma invencionice do século 19-20 e que virou “verdade” na onda new age pós anos 60. Na verdade, para os gregos, o “ascendente natural” seria cancer.

Até hoje o sistema de signo inteiro é usado na astrologia védica. Para cartas natais, é sempre interessante dar uma olhada na carta por signo inteiro também, se a posicao por signo inteiro difere da posicao por casa. Nao lembro de nenhuma referencia na astrologia grega que possa defender o uso de regentes das casas intermediarias. Quando eles falam de regentes geralmente se referem apenas ao regente do ascendente, ou da parte da fortuna, etc. Fora isso, só lembro de referencias aos signos inteiros quando se descreve um planeta nesse signo. Por exemplo, coisas como “marte no terceiro signo prejudica os irmaos”. Mas nenhuma palavra sobre olhar o regente do terceiro signo.

Os “novos helenistas” defendem que todo sistema de casa seria apenas uma traducao mal feita do sistema de signos inteiros. Considero essa posicao extremista e um tanto pretensiosa. Uso os signos inteiros faz muitos anos, e eles funcionam, mas a proposicao de que todos os sistemas de casas estao errados é mais moda. O pendulo sempre vai de um lado para outro em astrologia, e costuma avancar demais para cada lado, antes de voltar a um ponto mais equilibrado. Alguns anos atrás era pecado falar qualquer coisa que discordasse de Frawley. Agora aparentemente é o astrólogo Robert Schmidt o grande dono da verdade. Como eu disse, a moda vem e passa.

Entra em cena o MC

Se o ascendente fosse o único ponto de importancia na carta, o sistema de signos inteiros seria perfeito e maravilhoso. Infelizmente aparece outro ponto importante, o Meio do Céu, ou MC. O MC é a projecao do meridiano sobre o zodíaco. O meridiano é a linha que passa pelo topo de  sua cabeca unindo os pólos norte e sul. De uma maneira geral, o MC representa o “ponto mais alto” do movimento celeste diurno (mais sobre esse tema a seguir) e portanto representa temas como fama, carreira, reis e “topo do mundo”.

No entanto como o MC nao tem relacao com o ascendente, perto do equador ele estará geralmente no décimo signo a partir do ascendente, mas também pode estar no 9o signo ou no 11o. E, quanto mais aumenta a latitude, pior o problema. Vários astrólogos “analisam” se o MC faz aspecto com o ASC. Pura bobagem, obviamente. Quase todo mundo que nasce nos trópicos vai ter o MC em quadratura quase exata com o ascendente.

Como o ascendente e o MC nao se casam perfeitamente, o desafio é tentar forcar uma maneira de que os dois, se nao se casem, pelo menos namorem.

Sistemas por divisao.

Todos os sistemas que, de uma maneira geral, dividem o zodiaco em partes desiguais chamadas “casas”, sao chamados de sistemas “de divisao”. Era comum na época árabe usar dois sistemas, um olho no signo-inteiro e outro olho na divisao.

Há muitos sistemas, como Placidus, Koch, Regiomontanus. Os sistemas mais antigos sao porphirius e alchabitius. Porphirius é o mais antigo e o mais simples…. pegue o mapa e divida cada quadrante em tres. Por exemplo o quadrante entre o Ascendente e o MC, se for de 120 graus, seria dividido em 3 partes iguais de 40 graus cada, etc. Fora alguns sistemas aberrantes, todos consideram o ascendente como o inicio da casa 1, e o MC como inicio da casa 10.

Agora nos sistemas por divisao, nao há absolutamente nenhuma obrigatoriedade de haver uma correspondencia entre signos e casas. Vamos supor que o ascendente seja em 20 cancer. A cuspide da casa 2 pode estar em Cancer, ou Leao, ou Virgem…. vai depender muito da latitude.

Também será possível que um signo esteja totalmente interceptado. POr exemplo, a cúspide da casa 2 está em cancer, e da casa 3 está em virgem, e o signo de Leao está lá, escondidinho no meio dos dois. Como a divisao é simétrica, significa que para cada signo interceptado (casas grandes) em um quadrante, haverá em outro quadrante casas muito pequenas, e as cuspides de 2 ou 3 casas num único signo. Os sistemas de divisao tendem a “colapsar” quando o local é muito perto dos pólos.

Dois sistemas.

Os signos do zodiaco nascem do movimento secundário do sol e dos planetas na ecliptica. É um dos motivos pelos quais na astrologia ocidental se optou por usar o ponto Aries, e nao as estrelas fixas, como marco zero do zodíaco. Os planetas representam um movimento eterno e perfeito em sua perpétua circularidade. Estao bem ou estao mal, mas em si os planetas e os signos sao imutaveis.

Mas também há um segundo movimento, o primário, criado pela rotacao da Terra. Através desse movimento, todos os planetas e estrelas vao nascer no Leste, culminar no Meridiano e se por ao Oeste. Esse é o movimento “terrestre”, nao tao perfeito e imutável quanto o celestial, mas mais mundano e portanto adequado a nossa pequena vida, que nao é perfeita, mas que tem comeco, meio e fim.

Entao, para mim, nada mais lógico do que termos dois sistemas, um que está relacionado com a lógica perfeita das Esferas, e de seu significado e simbologia espiritual, e outro que está ligado com a pobre materialidade terrestre, do nascimento, transformacao e morte.

Os sistemas de divisao “aterrisam” o mapa, mostrando o quanto determinada configuracao tem poder para se manifestar, e como ela está tendo seu sentido modificado pela vil e compicada vida, que raramente colabora com o que “devia ser”.

Abracos

→ 18 ComentáriosCategorias: astrology · casas astrológicas

Aforismos

4 Agosto, 2009 · 1 Comentário

lengua-782891

Ontem me perguntaram se devemos confiar nos aforismos, então resolvi escrever algo a respeito.

Para quem não sabe os aforismos são pequenas peças de interpretação que foram deixadas pelos antigos. Em geral são no formato se-então, por exemplo: “quando mercúrio estiver no signo de escorpião, o nativo matará a própria mãe”, mas claro, estou exagerando um pouco.

O que precisamos saber antes de querer aplicar os aforimos.

Linguagem e  estilística

Muitos modernos lêem os aforimos e acham que são resultado daquela época de pensamento bárbaro, onde não havia o pensamento new age. Muito longe disso. O problema principal com os aforismos é de estilistica.

Hoje em dia, nos livros, o estilo de escrita é altamente condicional. Coloca-se uma série de modalizadores para indicar graus de incerteza, inexatitude, tendência, etc.

Então ao invés de dizer:

“Pessoas com marte em oposição a plutão são violentas”

O astrólogo moderno vai escrever exatamente a mesma coisa com uma série de modalizadores:

“Dependendo das circunstâncias sociais e do meio onde a pessoa vive, se ela tiver marte em oposição a plutão ela terá uma tendência a manifestar seus sentimentos de maneira que pode ser considerada pelos outros como violenta”.

A informação é a mesma, o resto é um pouco de adubo para não chocar ou ofender as possíveis pessoas com marte em oposição a plutão e que nunca machucaram uma flor.

A estilística antiga

O estilo dos antigos era bem diferente. Ao invés de minimizar, eles tentavam maximizar o sentido da configuraçã0, exagerar até um ponto máximo, quase absurdo, mas que ficasse tão claro que até o estudante mais bruto memorizaria o exemplo.

Então vamos supor que, em nosso exemplo inicial:

“quando mercúrio estiver no signo de escorpião, o nativo matará a própria mãe” (note que estou inventando isso!)

Na verdade é mais um exagero estilístico. O autor nao quer realmente dizer que o nativo está destinado ao matricídio. Ele quer dizer algo como “o nativo será violento”. Ou “o nativo será violento com seus familiares”. Mas ele coloca o caso mais forte, memorável, ilustrativo.

Então ao invés de dizer que o nativo será promíscuo, o autor geralmente diz algo mais reluzente como “se deitará com suas irmãs e todas as prostitutas que encontrar, com animais de fazenda e com toda criatura que encontrar”.

Alguns dos antigos tinham um certo gosto para o drama.

Aforismos e “receitas de bolo”

A maior parte dos livros que se encontra hoje em dia de astrologia não passam de “receita de bolo”. Nos primeiros dois capítulos se explica rapidamente signo, elemento, planeta e casa. As outras 100 páginas são de uma listagem de

- sol na primeira casa, sol na segunda casa, sol na…

- mercúrio em virgem, mercúrio em libra, mercúrio em…

- urano em quadratura com sol, urano em quadratura com lua…

e no final se termina com duas páginas um mini-caso analisado mal e porcamente. E depois se reclama que os astrólogos não sabem “sintetizar”, esse mundo de palavreado desconexo.

Note que o objetivo do aforismo Não era o mesmo desses livros de receita de bolo astrológico!

Se esperava que o leitor tivesse um professor que o orientasse, e que o ensinasse astrologia. O livro mesmo (e deve-se lembrar a dificuldade que era conseguir um livro) era usado como referência.

Imagine o caso de um médico hoje em dia. Na faculdade ele aprende a teoria, na residência aprende os procedimentos e a fazer um diagnóstico. Depois que ele já sabe diagnosticar, ele vai no congresso ouvir um estudo de caso exemplificando uma condição extrema.

Com o astrólogo era a mesma coisa. Você supõe que a pessoa já sabe mais ou menos delinear uma carta. Você não precisa explicar cada ponto. Agora que ela já sabe fazer um diagnóstico, você aponta alguns casos especiais que são importantes sempre ter em mente!

Quando devo usar o aforismo?

Acho que o primeiro critério é que ele faça sentido!

No caso que eu inventei sobre escorpiao e mercúrio, não tem nenhuma teoria ou explicação. Mercúrio nunca foi o significador natural de violência Se não faz sentido para você, reserve. Ele pode fazer sentido depois.

Por exemplo algo como “venus e mercúrio em conjunção na casa 6, a pessoa se envolverá com escravos”, pode não fazer sentido ao princípio, mas depois você entender que mercúrio era o significador natural de escravos.

Depois disso você tem que pensar em como isso se adapta na sociedade moderna. Eu interpretaria como “a pessoa se envolverá com pessoas de classe social mais baixa que a sua”.

E só aí que acho que vale a pena tentar procurar cartas que se encaixem no aforismo. Não acho uma boa partir da “análise empírica”, porque o empirismo é  uma metodologia muito fraca em astrologia.

Ao invés de tentar “provar se o aforismo funciona”, e vendo se pessoas com mercúrio com venus casam com escravos, é muito mais interessante entender o porquê, qual o motivo ou lógica que levou o autor a dizer isso: na minha experiência é aí que está o maior aprendizado dos aforismos!

→ 1 ComentárioCategorias: Filosofia e Crítica · Iniciantes e Tutoriais · astrology

Leia antes de abrir!

20 Julho, 2009 · Deixe um comentário

DangerWillRobinson

Alguns pequenos cuidados que qualquer astrólogo deve ter antes de pensar em abrir um mapa astral!

E o tempo levou

Uma das coisas mais bobas a se lembrar, mas por favor, lembre-se dela mesmo assim. Sempre confira o tempo (hora de nascimento ou hora em que a pergunta foi formulada) e o digitado!

Recentemente eu perdi uma consulta inteira porque digitei “Jul” e era “Jun” o correto. Perda de horas de trabalho e ainda ter que passar vergonha – “ah, yuzuru, essa não é a minha carta não”.

Sim, eu sei, você deve estar lendo isso e pensando “altzheimer chegou cedo”. Eu também pensava isso dos outros, até que aconteceu comigo. Cuidado.

Uma coisa que é ainda mais perigosa é o maldito  horário de verão. Se a pessoa nasceu em dezembro, janeiro, etc, cuidado!

Janus calcula o horário de verão do Brasil errado, ponto.  Se o mapa é da época perigosa, não confie no Janus, veja a tabela de anos que realmente tiveram horário de verão. Além disso, ele também calcula horário de verao para regiões que hoje em dia não usam mais o sistema. O astro.com é mais seguro, mas eu também recomendo cuidado.

Lembre-se que essa hora de diferença pode fazer o ascendente saltar de signo, fazendo com que você erre totalmente suas delineações.

Brasil nao é o único lugar com esse tipo de problema. Nos Estados Unidos, cada estado tem sua legislação particular sobre coisas como o horário de nascimento da certidão! Isso pode ser muito confuso e até ridículo. Astróloga Védica Joni Patri conta como uma de suas delineaçoes errou totalmente por causa de uma dessas brincadeiras estatais.

Veja primeiro o que está invisível

Qualquer pessoa com o grau mínimo de alfabetização em astrologia consegue ver que marte está em áries ou Júpiter está em gemeos. O problema é ver as pequenas coisas que nao estão tão à vista.

Por exemplo saber os termos de cada signo é muito importante, mas não é algo que alguém se lembre de memória. Para evitar esquecimentos, você pode simplesmente imprimir e marcar na folha os termos de cada planeta e ponto importante da carta (ascendente, MC, parte da fortuna, etc). O software Morinus tem uma opção que automaticamente mostra os termos e faces de todos os signos!

Outras coisas que são facilmente esquecidas são as antiscia! Esses pequenos animaizinhos dão muita dificuldade aos principiantes, que nunca os encontram na carta. Então poupe o erro e ache esses bichinhos, e outras criaturas parecidas que você use, antes mesmo de ler a carta.

Não confie no computador!

Não tenha confiança cega no computador! Já dei o exemplo que Janus e outros programas podem calcular o horário de verão errado. Fora isso, há vários erros e problemas distribuidos pelos softwares.

Um exemplo, Janus calcula os dias planetários incorretamente. Por exemplo, quinta-feira as 2 da manha, está listado como sendo dia de júpiter. Isso está incorreto, porque o dia de júpiter  começa ao nascer-do-sol, e nao à meia-noite, como no calendário oficial. As horas planetárias ele calcula corretamente.

Outras coisas como Lua fora de curso, termos, almutens, são coisas em que os softwares erram constantemente.  O astrólogo deve deixar a preguiça de lado e conferir se os cálculos do computador batem com sua maneira pessoal.

Direções primárias estao erradas na maioria dos softwares. O único que parece que faz o trabalho de maneira adequada, até agora, é o Morinus.

Não confie no que os planetas “parecem que estao fazendo”

Planetas “parecem que estão fazendo” certas coisas, mas não confie cegamente neles também. Consulte sua ephemerides, ou, no computador, simplesmente use uma ferramenta como a “eletiva” do Janus, para avançar alguns dias no tempo.

Confira a velocidade dos planetas. Em 90% dos casos, venus é mais rápida que marte e um aspecto dos dois será aproximativo. Mas às vezes Venus pode estar perto de sua retrogradação e nunca completará o aspecto. Ou, como tivemos o caso meses atrás, venus estava direta, mas tão lenta que marte fugiu dela por todo o signo de áries, e marte trocou de signo antes de completar o aspecto.

Principalmente em horária isso pode ser a diferença entre acertar e errar. A lua em 15 parece que vai fazer aspecto com venus em 20°15 , antes de com o sol em 20°18, mas até a lua completar o aspecto, ela vai chegar primeiro em sol, porque venus já se moveu aquele pouquinho que faltava.

Confira também coisas simples, mas que são facilmente esquecidas, como transferência e coleçao de luz, interferências e impedimentos.

Pense no que está fazendo!

Um dos maiores motivos de absurdos em astrologia são causados por astrólogos com preguiça de pensar.

Por exemplo, um certo “especialista” em sinastria comentando sobre um mapa da moça, que tem vênus conjunto ao Plutão do namorado em 10 de Libra e dizendo que “isso explica sua relaçao kármica, tumultuada e sexual”.

Ora, isso é relevante? Vamos pensar. Venus é um planeta rápido, então ela fica num signo por pouco tempo, ok. Plutão é um planeta geracional, ou seja, ele  pode ficar décadas inteiras num signo.

Nossa moça tem venus em 10 de libra. Vamos assumir uns 5 graus de orbe nessa conjunção que explica a relaçao “kármica”. Oras, outra maneira de dizer o mesmo fenômeno é dizer que “você terá relações tumultuadas com absolutamente todos os homens que nasceram entre Agosto de 1974 e setembro de 1978″.

Talvez nossa querente não ache grande sacrifício evitar homens nessa faixa etária, provavelmente meio bilhão, mas a verdade é que a análise nao faz sentido nenhum.

Esses erros parecem coisa de gente amadora, e são, mas também sao extremamente comuns.

“O sol está em áries na carta do ingresso solar, mostrando que o governo estará forte esse ano” – O sol sempre está em áries na carta do ingresso solar. Essa é a definiçao de ingresso solar.

“O sol no seu retorno solar está em peixes, mostrando que você estará muito sonhadora esse ano”- novamente, o sol no seu retorno solar SEMPRE estará na mesma posiçao que no nascimento!

“Venus na carta de posse de Obama estava em Peixes, que mostra um governo utopista”. – Mesmo? Só que venus tem um signo regular de quatro anos, o que significa que na posse do primeiro governo Bush, venus também estava em Peixes! Puxa, tio, custava ter aberto um mapa?

Então na próxima vez que começar uma análise, antes mesmo de ler o mapa você sabe que já tem várias coisas a fazer!

Artigos Relacionados

→ Deixe um ComentárioCategorias: Filosofia e Crítica · Iniciantes e Tutoriais · astrology
Etiquetado: , , , ,

Tres Perguntas e um comentário

13 Julho, 2009 · 7 Comentários

Recebi na última semana a três perguntas e a um comentário. Como acho que todos falam sobre temas complementários da astrologia natal, resolvi responder todos de uma vez.

Pergunta 1 –

Que você teria a dizer sobre alguem que tem netuno na casa 7 em cima da cuspide. Que a pessoa é trouxa nos relacionamentos ou ela é paranóica,.. ou vai ser muito enganada ou trabalhar com arte ???

Minha resposta, obviamente, foi que esse é um blog de astrologia tradicional, e não usamos netuno e nem outros corpúsculos. Mas vou expandir a resposta porque o erro fundamental aqui não é usar netuno, quiron, Xena, Cupido, ou qualquer outra coisa que inventarem amanha.  Mesmo que o planeta na cúspide fosse um planeta de verdade, como venus ou saturno, o problema continuaria.

O primeiro ponto é que o simbolismo do planeta deve estar bem definido e compreendido, sem margem para  esoterismos. Por exemplo, nao creio que “trouxa”, “paranóico”, “artístico”, e “ser enganado” sejam simbolismos muito bem definidos para  netuno. 

Note que algumas dessas características são referentes ao indivíduo, e outras são referentes às pessoas com quem ele se relaciona.  O indivíduo pode ser “trouxa”, mas quem engana são as outras pessoas,  de natureza netuniana. Aqui você está usando um vício de astrologia moderna que é “tudo no mapa representa a pessoa”. Não, o mapa representa diversas coisas, e elas precisam ser vistas de maneiras diferentes. Ou o aspecto se refere ao indivíduo ou sobre as coisas e pessoas que o cercam.

A carta natal é algo que estará vigente por toda a vida da pessoa. Ou seja, aquele netuno na casa 7 estará lá aos 5, 22 e 80 anos de idade. Estará funcionando no primeiro, segundo e terceiro casamento. Estará funcionando nos casamentos e nos períodos de solteirice. Entao a análise da carta natal é um processo naturalmente amplo, pois ele nao pode lidar com especificidades, e sim com coisas que, apesar de terem a mesma essencia, se manifestarao de maneiras diferentes ao longo da vida.

Assim uma pessoa que tenha marte na casa 7 pode se relacionar primeiro com uma mulher agressiva que bate nele, depois com uma bombeira, e por último com uma cirurgiã. As três representam “marte”, mas sao tipos muito diferentes de marte. Mesma essência, diferentes materializações. Outro exemplo, se marte for o seu significador profissional, ele pode se manifestar como açougueiro, policial, ou engenheiro, de acordo com fatores que não são astrológicos, como classe social. 

Lembre que o astrólogo é um artista, nao um mecânico. Não existe e nunca haverá nenhum sinal que seja ao mesmo tempo único e completo. Não existe nenhum sinal que faça com que 100% dos seus portadores sejam “paranóicos”. E nao existe nenhum traço comportamental para o qual todos os membros do grupo tenham um sinal astrológico em comum. Por isso antes de dizer qualquer coisa sobre o mapa procuramos por vários sinais que confirem nossa hipótese.

Mas antes de eu escrever essa resposta, Hercules já havia me enviado outra pergunta:

Pergunta 2 -

qual seriam os fatores mais preponderantes para definir o caráter de alguém? Tipo têndencias para enganar ou ser mau caráter?

Não que esteja “errado”, mas vejo dois problemas muito complicados com essa pergunta- um é o vício da astrologia moderna de fazer a astrologia “Jack o estripador”, querendo transformar palavras-chaves que se falam  na rua e no jornal em conceitos astrológicos. Então se voce olhar pelas comunidades do orkut de pseudo-astrologia, vai ver um monte de pergunta do tipo “como eu vejo inveja no mapa”. “Qual é o planeta que mostra hiperatividade?”. “Qual é a casa da depressão pós parto?”.

A inveja nao é um fator tao bobo a ponto de querer se achar um sinalzinho em qualquer lugar do mapa! Comentários do tipo “Olhe se a pessoa tem quiron em escorpiao, com certeza será invejosa!” só mostram a ignorância de quem perguntou e de quem respondeu.

O segundo problema novamente é de achar que há um sinal e apenas um único sinal que pode indicar tal ou tal traço. Lembre-se que o astrólogo é um artista, nao um mecânico. Se fosse assim bobo, colocaríamos as regras num programa e ele faria sozinho. O problema básico é que as pessoas querem interpretar as coisas separadamente, sem fazer uma delineaçao completa da carta.

A arte da delineaçao foi totalmente perdida na astrologia moderna, que prefere substitui-la pelo conceito de “síntese” das partes aprendidas separadamente. Na tradicional o método é bem diferente, começa-se pelos blocos básicos e vai se abrindo caminho até as partes mais complexas. Nunca há esse momento onde “somamos” as partes lidas em separado.

Entao nao há nenhum fator que, sozinho, faça alguem ser um sem vergonha. Temos que olhar a uma grande combinaçao de fatores. Como os alunos do meu curso sabem, o temperamento nao vai mostrar se voce é um sem vergonha, mas vai mostrar que tipo de sem vergonha voce provavelmente é. A casa 9, o sol e as partes espirituais vao mostrar algo sobre como se manifestam seus valores, etc. O senhor do ascendente vai mostrar o direcionamento motivacional do indivíduo. E tudo isso estamos pensando para pessoas que vivem no mesmo ambiente, sociedade e cultura. Qualquer outro fator, tomado isoladamente, como mercúrio em mal estado, ou marte com saturno, nao será nada mais do que instrumento dos pseudo-astrólogos que gostam de espalhar bobagenzinhas como “Canceriano é invejoso” nas comunidades de orkut da vida.

Pergunta 3 – que Guga me enviou  na lista episthemologie:

 Por acaso a astrologia pode falar sobre algo como telepatia, percepções, intuições? É que eu tenho isso um tanto aguçado, não muito, mas mais que o comum. São percepções de que sei que estão pensando em mim – sendo que muitas vezes sei o que pensam também. Consigo ver claramente o estado de espírito da pessoa ao vê-la. Sinto as intensões dela, o que ela quer dizer, o que está pensando, mesmo que não seja claro, evidente. É como se eu me desconectasse do físico e apesar de estar ali, eu estivesse numa camada mais sutil… às vezes, também posso perceber as coisas antes de acontecer, mas coisas como 1 segundo antes(isto já não é tão frequente e não sei se tão sensível, também não costuma envolver pessoas).
(…)
 Ah, também costumo pensar em algo incomum e depois de uns 3 dias isto costuma aparecer na minha vida, geralmente pela mídia. É como se eu sintonizasse a idéia que deva estar vibrando com força, algo assim. É difícil explicar, é muito abstrato, mas enfim a astrologia fala sobre algo relacionado a estas percepções?”

Primeiro temos sempre que definir de que tipo de astrologia estamos falando, já que tudo pode mudar muito conforme o “tipo” de astrologia. No caso qualquer leitor sabe que é óbvio que o Guga quer saber sobre astrologia natal. Mas nada é muito “óbvio” nessa vida.

Por exemplo, em astrologia mundana, há fatores específicos para se ver o nascimento dos profetas e das religioes. As religiões também sao regidas por planetas específicos. SAturno por exemplo rege o judaismo, venus o islamismo, marte o ateísmo. A lua representa todas as religiões e práticas baseadas na profecia, sonhos e divinaçoes.

Já na astrologia horária, que responde às questoes do dia a dia, se pode fazer uma pergunta do tipo “Esse sonho foi verdadeiro?”. Sonhos são uma das formas mais antigas e puras de divinação, e do que as pessoas hoje gostam de chamar de “telepatia” e outros nomes. Sonhos sao regidos pela casa 9 da espiritualidade. O regente da 9 em mal estado é um bom indicador que o sonho não representava nada mais que uma Pizza de aliche.

Chegando na astrologia natal, que as pessoas sempre assumem erroneamente como a “única” astrologia, o astrólogo já com experiência em horária sabe que a casa 9 da espiritualidade rege uma série de coisas mais importantes do que viagens longas e sua faculdade. A casa 9 tem influência direta sobre seus valores éticos e morais, a maneira portanto como você vê e segue sua vida. É aqui em geral que vemos a diferença entre o colérico que esmurra os outros e o colérico que convence os outros através de sua paixão. Entre o venusiano fútil e superficial e o venusiano que usa seus talentos para melhorar  o mundo e as pessoas ao seu redor através da beleza.

Meu papel aqui não é de ensinar como se faz astrologia natal (que por sinal me recuso a ensinar se a pessoa já não domina astrologia horária), mas no mapa natal vamos seguir os mesmos preceitos e princípios de sempre: veremos as casas, planetas e partes arábicas ligadas a espiritualidade.

O sol é o regente natural da espiritualidade e valores. A casa 9 é a casa mais ligada a espiritualidade, seguida pela casa 3, que é a espiritualidade “manifesta”, concreta, de como se aplica na vida real os valores. A casa 12, que os modernos chamam de casa da “espiritualidade” é a espiritualidade negativa, ligada à magia negra, inimigos secretos, vícios, doenças mentais e auto-destruiçao.

Agora veremos, a partir de regências, aspectos, etc, qual o planeta ou planetas que tem maior relação com a espiritualidade no mapa do nativo. Do mesmo jeito que a lua naturalmente representa religioes como o espiritismo, a lua na casa 9 ou relacionada a ela frequentemente faz com que a pessoa se aproxima desse tipo de religiao ou prática. Na última semana eu fiz dois mapas, um de um telemita, outro de um tarólogo, os dois com a lua no nono signo. Mas várias outras posiçoes da lua podem resultar nesse tipo de interesse ou habilidade.

Zoller também acredita que a parte do espirito é responsável pelas videncias e intuições.

Uma outra maneira totalmente diferente de responder à pergunta seria que “nem tudo na vida precisamos responder”.

No caso a pergunta foi feita teoricamente. Mas se alguem me perguntasse a razao de ele ser intuitivo, a resposta correta seria “que bom que você é intuitivo”.

A astrologia nasceu para ajudar com problemas concretos. Se voce acha que é uma pessoa intuitiva, bom para voce. Mas por que voce quer olhar para a carta “para ver onde está?”. Claro, há o aspecto de aprendizado mas, fora isso,  nao me parece muito prático. Caímos facilmente na pseudo-astrologia do preconceito e do estereótipo. “Canceriano é muito intuitivo”. “Capricórnio nao é criativo”, etc. Então é um ponto importante para reflexao antes de qualquer análise.

Além de tudo isso, como diz o Christopher Warnock, os astrólogos sempre acham que tem que ter uma resposta para tudo. Por que teve o golpe em Honduras? “Porque quiron estava em oposiçao a saturno”. Porque caiu o aviao? “Porque uranus estava no ascendente”, etc, etc, mesmo quando essas respostas são obviamente mentirosas e nao tem o menor valor preditivo. Acho que tem muito valor responder com um honesto “eu não sei, acho que vale a pena investigar”. Todas as coisas escritas acima são minhas reflexoes sobre o tema e o que observei em poucos casos. Mas de resto, toca investigar.

Comentário – Claudia comentou sobre a pergunta de guga que

Quando o Yuzuru enviou a situação de mercúrio no mapa que qualifica um bom astrólogo eu fiquei meio decepcionada, porque eu não tenho

O comentário se refere a uma resposta minha sobre qual é a posiçao de mercúrio que é mais comum para astrólogos. Então a pobre Claudia que não tem essas posiçoes está condenada a ser uma péssima astróloga?

Se voce ainda acha isso, releia o que escrevi acima. Há multiplas possibilidades e configuraçoes para qualquer coisa. O simples fato dela gostar de astrologia e estar no curso já mostra que ela tem alguma coisa. Minha lista, como todas as outras, é apenas uma idéia muito vaga dos possíveis potenciais que se manifestam em ser um astrólogo. Ou seja, essas condições já estão presentes, em alguma forma, na carta dela.

Além disso, ao contrário do que muita gente acha, a astrologia é uma técnica e,  portanto, pode ser ensinada e aprendida. A pessoa não precisa ter a maior vocaçãao do mundo para a coisa. Ela precisa ter aqueles três grandes componentes do estudante: desejo de aprender, força de vontade e um bom professor.

→ 7 ComentáriosCategorias: astrology

Eventos em Julho 2009

6 Julho, 2009 · 7 Comentários

secuestro-express-botero

Novamente entramos na temporada de eclipses. Começando com o lunar, amanhã, teremos tres eclipses nos próximos 30 dias:

  • eclipse lunar 7 de Julho (lua em 15 Capricornio)
  • eclipse solar 22 de julho (29 Cancer)
  • eclipse lunar em 6 de agosto (lua em 13 aquário)

Como você já sabe lendo o blog, os eclipses têm a explicação astrológica de ser a lunação (lua cheia ou nova) onde os luminares (sol e lua) estão conjuntos aos maléficos nodos norte e sul. Na mitologia da astrologia hindu, os nodos eram um grande dragão imortal, que foi cortado em dois pelos deuses. As duas partes, mesmo separadas, não podem morrer, e para se vingar, correm sempre atrás do sol e lua. Mas o eclipse não dura muito tempo, afinal de contas o dragão cortado não pode “digerir” os luminares engolidos e o ciclo recomeça.

O que esse eclipses podem trazer para a astrologia mundana, que é a astrologia dos países, dos grandes eventos naturais e políticos?

Astrometeorologia

Eclipses tem a fama de causar perturbaçoes, tanto meteorológicas quanto sísmicas, além das políticas e pessoais. Como se isso não bastasse, o eclipse de amanhã está ainda perto dos pontos do solstício, ou seja, a lua está perto de sua máxima declinação sul. Isso geralmente afeta as massas de ar de um hemisfério mais do que a do outro, segundo os astrometeorólogos.

O eclipse de 22 de Julho é ainda mais preocupante desse ponto de vista, pois o eclipse acontece no periélio, ou seja, no ponto de maior aproximação da lua à Terra. Normalmente uma simples lua cheia no periélio já é considerada um alerta para tempestades e possíveis furaçoes e até terremotos. Se espera que um eclipse no periélio aumente ainda mais a possibilidades dos extremos de clima. O astrólogo Richard Nolle tem preocupaçoes semelhantes à minha para os dois eclipses. Ele crê que a janela de impacto para o eclipse de 22 vai desde o dia 15 de julho até o 29.

Eventos atuais – Honduras e México

1246233712

Dois países estão tendo eventos políticos importantes. Honduras sofreu um golpe e está ainda em total e completo caos de legitimidade. México teve eleições legislativas e governamentais esse domingo. Poderão ser afetados?

Nao confio muito em mapas de “fundação de países”. Nao era esse o procedimento dos antigos. Mas de qualquer jeito achei um mapa para Honduras com ascendente em 27 Capricornio, e outro para México com ascendente em 17 Cancer.

Corografia

Corografia (khŏros- “lugar” + -graphein-”escrita”) é o nome da atribuiçao antiga de países a signos. É claro que, infelizmente, a maior parte dos paises atuais nao existia na época! As atribuições antigas para Câncer incluem Armênia, Trácia, Bretânia, certas partes da ásia que hoje seriam da China e partes da Africa.

Usando corografia moderna, da qual nao me responsabilizo, temos cancer como sendo Escócia, Holanda, Paraguai, Estados Unidos, Nova Zelândia. Curiosamente México está listado como um dos países regidos por Capricórnio.

Brasil e Sarney

Segundo Getúlio Bittencourt em “A luz do Céu profundo”, Sarney teria o Ascendente em 23 de touro, onde venus e marte tem brincado nas últimas semanas.

sarney

Sarney – 24 abril 1930 – 7h30, Pinheiro (MA).

Na verdade eu diria que Sarney foi mais afetado pelo último eclipse lunar (que caiu bem no seu MC) do que pelo atual. Eu vi no twitter da Barbara Abramo que ela acredita que o eclipse trará a queda de Sarney, mas a mim parece que o ponto principal já passou. Talvez ela esteja observando o aspecto do eclipse a Saturno natal, mas eu costumo olhar apenas os contatos com os pontos higélicos, ou entao a gente teria contato dia e noite! Para mim afetaria mais a Roseana, que tem o ascendente em 13 de Cancer, segundo o mesmo Bittencour.

No momento não tenho o menor tempo para fazer uma análise completa do caso Sarney. A quem interessar que use os dados disponibilizados.

Astrologia Visual

Usando a astrologia visual de Bernadette Brady, a tendência é que um eclipse lunar que tenha a lua se pondo (portanto a oeste) geralmente é um mal testemunho para líderes desses países. O eclipse será apenas marginalmente visível na maioria desses três países, então eu não sei o grau de efeito que ele terá. Mas especulo se no México isso não possa significar a derrota do atual governo, que ficará com um congresso de oposição.

No mapa do eclipse para américa latina, saturno estará debaixo da terra e invisível, marte estará alto no céu, ainda com vênus, e com a participaçao de Júpiter nos céus. Essa configuração nos trouxe o golpe em Honduras, e em México, e talvez em Brasil, possivelmente representa uma derrota para o Rei, com Júpiter (o príncipe) se aliando a marte para derrubá-lo.

Artigos Relacionados

→ 7 ComentáriosCategorias: Eventos e política · Previsao e Técnicas · astrology
Etiquetado: , , , , , , ,

Crie seu próprio oráculo

29 Junho, 2009 · 1 Comentário

waterscrying

Como eu prometi, aqui vai um artigo que tenta mostrar “na prática” as possibilidades e limitações na criação de um oráculo.

Eu estou me baseando num artigo da revista Rendering the Veil, mas esse artigo foi tirado do ar, e não tenho uma cópia, e a editora da revista me respondeu dizendo que ela não tem previsão de quando vai poder restaurar os arquivos da revista, então fica por assim mesmo e eu tento fazer um pouco de memória, um pouco improvisando.

Então vamos brincar um pouco e fazer um oráculo com moedas. Por que moedas? Porque elas são simples (caras ou coroas), estão amplamente disponíveis, você pode usar elas em qualquer lugar sem precisar escondê-las, são resistentes, etc.

Primeira Tentativa – que tipo de moedas?

A primeira tendência é o que eu chamo de “fetichismo”. A moeda é usada para trazer a verdade. Portanto a moeda é mágica, ela é especial, ela que “fala”. Precisamos de uma moeda especial e protegê-la com cuidado.

Desse raciocínio que aparece certas crendices por aí. Por exemplo o povo que acha que o tarot é mágico, que só se toca com tal mão, que só se lê em tal hora do dia, etc. Nenhuma dessas “regras” faz sentido, são superstições que a pessoa cria por si mesma, e que geralmente acabam limitando sua própria leitura.

Mas a moeda é apenas uma moeda, o tarot é apenas papel, os dois foram criados por um fabricante industrial, nenhum dos dois tem mérito por si só.

Segunda tentativa – vamos criar atributos

A maneira mais lógica e simples é convencionar um atributo.

Como o atributo é arbitrário, não há o aspecto “divino” da divinação, e o método não é nada mais que uma brincadeira.

Nessa categoria temos o “bem me quer, mal me quer”, o “se a pedra derrubar aquela lata é porque ela me ama”, ou “cara ou coroa – se der cara é porque eu vou conseguir o emprego”.

Os jogos que tem um conjunto fechado de mensagens arbitrárias também nao estao longe disso. Aqui temos o biscoito chinês e os americanos têm a chamada “Magic 8 Ball” que, ao sacudir a bola, te dá uma entre 8 mensagens prévias do tipo “sim”, “é provável”, e “jogue outra vez”.

Outro exemplo é fazer um jogo de 2 dados, com significados arbitrários como (esse método eu peguei do mago MOloch):

03 resultados inesperados mas favoráveis
04 Desapontamentos
05 Algo que você deseja virá para você
06 problemas em assuntos de negócios
07 problemas com fofocas
08 Fortes influencias exteriores
09 Amor, harmonia e reconciliaçao
10 Nascimentos, promoções e novos começos
11 separação de pessoas amadas
12 uma carta de boas notícias
13 resultado infeliz
14 ajuda de amigos ou um conhecido se torna um amigo 
15 cuidado, evite tentações
16 bom sinal para viagens
17 mudança de planos
18 Felicidade e sucesso

A mesma coisa se aplica ao povo que joga I ching da maneira moderna, que é basicamente ler um parágrafo e buscar por sabedoria (sim, os dez mil livros que você leu sobre I ching estão errados, não é assim que se joga na China). Isso não é muito diferente da Magic 8 Ball ou de ler um pedacinho da Bíblia por dia buscando sabedoria. Às vezes isso pode trazer algo útil, mas geralmente a resposta vai ser algo como “o homem que carrega todos os seus ovos numa cesta deve ter medo da grande cegonha vesga”. Alguém pode até achar algo útil aí na sua pergunta sobre crescimento espiritual, mas é pouco provável que responda a algo mais mundano, sobre amor ou se as ações da bolsa vão subir.

Então precisamos procurar atributos que sejam menos arbitrários. Como eu expliquei antes, para mim a melhor maneira é conectar nosso oráculo a uma determinada cosmologia, ou visão ou modelo do universo espiritual, do que atribuir um significado arbitrário para cada número de um dado.

Terceira tentativa – vamos apelar aos números

O segundo problema é que o processo de divinaçao deve ser suficientemente amplo para poder responder a uma grande série de perguntas, e dar uma grande série de respostas. Sistemas de respostas convecionais raramente podem fazer isso.

Bem, a primeira tentativa foi usar uma moeda e chegar a um simples “sim” ou “nao”, como dito acima, isso é bem arbitrário. Mas o pior é que é muito limitado em sua descriçao do mundo. A grande maioria das situaçoes não são limitadas apenas em um sim/não. Há um monte de “talvez”, “mais ou menos” e “depende” no mundo. Isso torna o sistema de cara/coroa muito ruim.

Poderíamos melhorar um pouco sistema, adicionando mais moedas. Assim, por exemplo, se tivéssemos cinco moedas, todas dizendo “sim”, seria um “sim” muito forte, e o resto daria mais um “talvez”, ou “provávelmente sim”.

Apesar de ser uma melhora em relaçao a um simples cara e coroa, e algumas pessoas gostarem pelo espiríto quantitativo de nossa era, eu acho um sistema muito pobre, que apenas “tapa com a peneira” o problema fundamental de falta de um simbolismo mais amplo.

Por exemplo, se transformamos o sistema de sim/nao para um do tipo masculina/feminina, já temos um pouco mais de “margem de manobra”.

Por exemplo, 4 caras, ao invés de representar um “total sim”, pode representar uma situaçao de “energia masculina” que pode ser benéfica para uma questao sobre carreira, e ruim para uma sobre amor.

Quarta tentativa – Cosmologia – eu também quero uma para viver

Bem, então vamos procurar uma “cosmologia” para representar nosso oráculo. Necessitamos um “acima” para representar o nosso “abaixo” para poder formar o famoso “o que está acima é como o que está abaixo”. Uma representaçao material do modelo espiritual.

Vamos usar apenas quatro moedas no nosso exemplo, mas poderíamos ampliar ou diminuir esse número.

Quatro moedas iguais? Nao, melhor quatro diferentes, assim podemos usar elas para representar diferentes coisas. Por exemplo, uma moeda de 10, 25, 50 centavos, e uma de 1 real.

70px-10centavoII 90px-25centavoII 85px-50centavoII_2 100px-1realII_2

Agora vamos atribuir significados a elas. Mesmo que seja um pouco artificial, vamos usar a escala de valores das moedas, para dá-las um significado qualitativo que possa ser útil na maioria das situaçoes. Por exemplo, a moeda de 25c vamos chamar de I, porque vai representar o indivíduo que pergunta. A moeda de 10c pode ser coisas (C)que sao naturalmente inferiores a ela, como subordinados, propriedades, etc. A moeda de 50c vai representar o outro (O), que geralmente vai ser um amigo, inimigo, associado, etc. A moeda de 1R vai representar o que está acima do indivíduo, como por exemplo autoridades, governo, etc (P de poder).

Já temos um mini-sisteminha de divinaçao em nosso oráculo. Vamos supor que a pergunta fosse “vou ganhar uma promoçao”, poderíamos usar a moeda de 25c, I, e ver se ela é cara (+) ou coroa (-). Ganhar uma promoçao é uma pergunta do tipo ativa (+). Entao se o número de moedas for mais ativo, melhor, mas principalmente se as moedas relacionadas ao tema (I e P- poder) forem (+) também. Se nao o forem, poderíamos supor que o Indivíduo nao está fazendo o necessário, porque a moeda I é (-), ou seja, está fraca, ou porque o emprego realmente nao tem uma vaga para promover a pessoa, por exemplo a moeda P está fraca (-).

Ok, já temos um modo de atribuir um tema a cada moeda, e temos uma maneira rudimentar de atribuir força a cada moeda. Vamos complicar um pouquinho mais.

Vamos pegar uma folha de papel, e dividir em quatro partes iguais. A cada parte vamos atribuir a um dos quatro elementos. Por exemplo, as partes de baixo podem ser para os elementos frios, água e terra, a parte de cima para os elementos quentes, fogo e ar. Agora vamos jogar as moedas sobre a folha e ver onde elas caem.

Vamos supor que uma moeda de 25c (I) caiu no quadrante de fogo. Entao o indivíduo está representado por fogo. Pode ser que ele esteja impulsivo, ativo, explosivo, dinâmico. Se a qualidade do elemento é expressa de  maneira positiva ou negativa poderia depender da moeda ser (+) ou (-). Se a moeda está no quadrante de água, que é naturalmente (-), mas a moeda está na modalidade (+), entao o individuo (I) expressará as qualidas mais negativas do elemento água.

Isso também estabelece relaçoes entre as moedas. Vamos supor que a moeda (I) caiu no quadrante de terra. Qualquer moeda que caia no quadrante de ar será inimiga da moeda (I) e trabalhará no seu contra. 

Um exemplo poderia ser algo como “vamos namorar?”, quer seria uma pergunta (-)

E o resultado das moedas:

10c (C) – (+) água

25 c (I) – (-) terra

50c (O) – (+) água

1R (P) – (-) ar

Daí teríamos o seguinte: nosso foco principal seria nas moedas I e O, representando o casal, respectivamente. I é (-) numa pergunta (-) entao tem força, está seguro do que quer e pode conseguir. Seu ambiente é terra, que é naturalmente (-). Ou seja, tem força para conseguir o que quer e tem uma boa qualidade.

Já O é (+) numa pergunta (-). Talvez nao esteja tao interessado, está preocupado com suas próprias coisas, etc. Além disso, está num elemento contrário (já que água é passiva). Nada bom, provavelmente é uma pessoa problemática, apresentando os defeitos do elemento água, por exemplo preguiça e excesso de emocionalismo.

Agora vemos que a moeda P, de poder. Como ela é de ar, ela é contrária a moeda I, de terra. Ela é uma moeda (-) num elemento (+), ou seja, ela é de má qualidade. Uma moeda de má qualidade num elemento inimigo é a pior situaçao possível. Talvez represente que o pai da outra pessoa (P) vai estar contra o relacionamento.

E é isso. Antes que “viajemos” mais ainda, espero que dê para entender quando eu digo que as regras oraculares nao sao totalmente arbitrárias, pois o seu simbolismo representa um macro-cosmo.

E, depois de tudo isso, das regras e postulados estarem prontos, agora é que entraria a parte de jogar mesmo, e ver quais sao as regras que surgem, como discuti no artigo sobre Emergencia.

As regras por, mais arbitrárias que possam parecer, desde que unidas a esse macro-cosmo, quando forem aplicadas ao nosso micro-cosmo material, abrirá caminho para as regras emergirem. Esse, afinal de contas, é o aspecto divino da “divinaçao”.

Por exemplo, poderia surgir uma regra de que se todas as moedas forem (+), num elemento (+), mas a pergunta for (-), mesmo assim a resposta será sempre um “sim”, etc. Sao as regras que nao tem nada de natural nelas e que só se percebe com a prática.

Artigos Relacionados

→ 1 ComentárioCategorias: Filosofia e Crítica · Temas Avançados · astrology · horária
Etiquetado: , , ,

Breves notas sobre as direçoes primarias

23 Junho, 2009 · 12 Comentários

der_recke_am_scheideweg

Viktor Michailowitsch Wasnezow “The warrior at the crossroads”

Se você não sabe o que são direções primárias, procure nossos artigos sobre Direções no blog. Nesse artigo faço pequenos comentários sobre as direções, e os mitos e erros que surgiram em torno delas.

1 – Primárias sao muito, muito, muito difíceis.

Não, não são. O que falta é didatismo. O didatismo vem da falta de claridade, que por sua vez vem da parte dos “especialistas” não dominarem muito o assunto, então terem um monte de vácuos no conhecimento que faz com que seja mais seguro “nublar” o tema, do que discutir ele claramente.

Além disso dois fatores influem. O primeiro é que, depois de Placidus cada um quer inventar o seu próprio sistema, e adicionar uma complicação. O segundo fator é que a maioria dos astrólogos não tem a menor idéia de como funciona o movimento dos céus, porque o povo dificilmente tira os olhos do computador, e os céus são cada vez mais encobertos.

2 – As primárias sao o melhor sistema de previsao em astrologia

Podem até ser, o que não significa que você precisa delas. Há vários outros sistemas, como timelords, profecçoes, firdaria, etc. Diferencie o marketing de quem quer vender cursos e livros do conteúdo verdadeiro. Os hindus não usam direções primárias e sabem prever muito bem.

Outra coisa, para nós pobres mortais que moramos na região tropical, a diferença entre usar uma direção primária e uma de arco-solar pode ser ínfima!

3 – as primárias acertam o dia exato dos acontecimentos

mentira deslavada de quem quer se colocar como “otoridade”. Todas as nossas fontes apontam que as primárias 1 – apontam o “sabor” de grandes períodos de tempo, assim como as firdaria e outros timelords; e 2 – quando elas apontam para eventos, elas marcam um período largo, como 1 ano. Morin mesmo dizia que só se devia considerar as primárias dentro da promessa de um retorno solar.

4 – as verdadeiras primárias eram de Ptolomeu

mais ou menos. O que acontece é que o sistema grego antes de Ptolomeu era muito “simbólico”, e do ponto de vista matemático, primitivo. A astrologia de ptolomeu é capenga na maioria dos pontos, mas a matemática dele era a mais sofisticada do tempo.

Mesmo assim, o modelo de ptolomeu ainda era um pouco “nas coxas” e só foi realmente aprimorado com os árabes, que realmente inventaram a trigonometria esférica. Foi por isso que os árabes viraram os grandes navegadores da sua época. Magalhães, Vasco da Gama, todos contratavam a navegadores árabes, que eram os únicos que realmente podiam guiar-se em mar aberto.

Para se ter uma idéia, basta lembrar que na época dos gregos não havia o zero. Difícil fazer cálculos sem esse numerozinho mágico.+

5 – As verdadeiras direçoes de Ptolomeu são as direções de Placido in mundo

Mentira óbvia que Placido inventou para validar seu próprio sistema. Desculpe, mas é assim.

Para quem pegou o bonde andando, há dois tipos de direção, in zodiaco e in mundo. A primeira dirige os pontos no zodiaco, a segunda dirige a real posição dos planetas na esfera celeste.

Basta ler ptolomeu para ver que ele dirigia os pontos do zodíaco, e ele sequer tinha a matemática para dirigir a posição dos planetas in mundo. Também ele não escreveu nada que dê a entender que ele estava “quebrando um galho”, mas que o método correto seria outro.

Os árabes e os medievais também dirigiam em zodíaco. Basta ver que os pontos a dirigir (com exceçao da Lua) estao todos na eclípitica: Sol, parte da fortuna, ascendente, SAN e Lua.

6 – Cada sistema de casas determina as direçoes. Assim podemos achar o sistema de casas “correto”

Quando se usa direções in mundo, realmente o sistema de casas determina os aspectos, já que não há um maneira lógica de dizer quando dois planetas estão em quadratura ou oposição. Isso não é um impedimento para as direções in zodiaco.

Então cuidado com o povo que diz que Placidus é o “verdadeiro” sistema de casas, porque é o único com que se pode fazer direçoes primárias. É uma mentira dentro de um erro dentro de um exagero. As primárias não precisam ser feitas em mundo, não precisam ser feitas com o sistema placidus, e placidus criou seu sistema num entendimento errado de Ptolomeu.

7 – Se as primárias in mundo nao eram usadas, e as zodiacais com latitude

Na minha opiniao é pior ainda, porque é uma quimera juntando dois bichos diferentes

8 – Com as primárias podemos retificar a data de nascimento até os segundos

Tem um monte de astrólogo moderno que adora esse conceito. Bem, deixemos eles brincarem o quanto quiserem, mas na tradiçao os indicadores astrológicos sao analisados em escalas… do grande nível, das grandes épocas da vida, até o cotidiano. Entao o sistema que sempre foi usado na astrologia tradicional, ia “descendo pelas escalas”, por exemplo, primárias, firdaria, profecções, revoluçoes solares, até chegar aos trânsitos, coitadinhos, para tentar localizar o evento.

Do mesmo jeito que não era usado para dizer a data até o dia, as primárias não podem corrigir a data de nascimento abaixo de um certo nível de precisão.

Claro que tem um monte de gente que jura de pés juntos que eles acertam até a cor das meias que você vai usar em agosto de 2015. Mas eles nunca fazem previsões públicas, preferindo contar histórias de seus inumeráveis sucessos e milhões de clientes satisfeitos. Como conheço bem o tipo que conta essas histórias, prefiro então enxergar meu ceticismo como natural e saudável.

9 – “Eu uso direçoes conversas e elas funcionam tao bem quanto as diretas”.

Nao existem direções conversas, ou seja, contra o sentido do tempo. Por muito tempo se acreditou que sim, mas a investigação de fontes tradicionais mostra que mesmo na renascença não existia esse conceito. Foi um erro dos autores do século 19.

10 – é muito dificil representar as primárias no computador

Mentira. Isso vem do mito 1, de que elas são horrivelmente esotéricas e difíceis, combinados com o problema do povo que quer usar primárias in mundo. As primárias são razoavelmente simples, são na verdade muito parecidas com as direções de arco solar, com as quais os astrólogos estão mais acostumados.

O arco solar é um processo totalmente simbólico. Digamos que você tenha a lua em 10 de Capricórnio. Você vai andar com a sua lua um grau por ano (um pouco menos, mas sejamos claros) entao depois de 20 anos sua lua vai “mudar” para aquário. A idéia é que todos os planetas são dirigidos na mesma velocidade que o movimento simbólico do sol.

As primárias são muito parecidas na sua representação, o que muda é o conceito. Imagine que sua lua em 10 de capricórnio esteja parada exatamente no meio do céu. Agora, ela está parada, e o zodíaco atrás dela continua  a se mexer. Então, depois de um tempo o signo de aquário vai chegar até a sua Lua que ficou “parada”, enquanto o zodíaco se “movia”.

Assim, na prática, as primárias se movem na mesma direção que as de arco-solar. Tem várias “otoridades” que disseram que as primárias se moviam contrárias ao zodíaco, mas isso não é verdade.

Entao, você pode imaginar sua lua se movendo de capricórnio a aquário, depois a peixes. Só nao se esqueça que na verdade é o zodíaco que está se movendo, e sua lua está paradinha.

11 – Diferenças entre arco solar e primárias

Eu pessoalmente considero o arco solar como direções simbólicas usando a chave de Naibod (o movimento de 0d59m como um ano de vida). Toda a explicação do movimento do sol me parece mais é papo. Deixando isso de lado, para os pobres mortais que vivem na região entre os trópicos de câncer e capricórnio, principalmente os que nasceram nas latitudes mais baixas, a diferença entre uma direção simbólica e uma primária vai ser beeeeeem pequena.

Já para quem nasceu em grandes latitudes, uma distancia simbólica de 30 graus, pode se tornar 10, 45, ou 50 anos em primárias.

12 -Nenhum software calcula primárias, por isso você deve comprar meu curso

Solar Fire calcula uma coisa totalmente diferente.

Janus aparentemente calcula bem (basta voce programar para primárias em zodiaco, sem latitude), MAS ele inverte quem é significador e quem é promissor, e fica tudo muito confuso, e como se nao bastasse, alguns pontos simplesmente desaparecem no meio…. uma zona.

Por enquanto eu voto no programa Morinus, que além de tudo é gratuito, e vem com o aval com algumas das melhores autoridades do gênero, como Martin Hermes e Steven Birchfield.

Artigos Relacionados

→ 12 ComentáriosCategorias: Filosofia e Crítica · Mapa natal · Previsao e Técnicas · Temas Avançados · astrology · casas astrológicas
Etiquetado: , , ,

Exageros gregos

17 Junho, 2009 · 16 Comentários

greek_320

Muita gente acha que a astrologia tradicional “sempre esteve aí”. Nada mais lógico, afinal de contas, ela é “tradicional”.

Mas nada mais errado. A maioria dos astrólogos modernos nao conhece livros que tem mais do que uns vinte anos no máximo. Tem gente que tem a pachorra de chamar de “clássico” livros que nao tem nem 40. E, esses livros “clássicos” por sua vez nunca leram os verdadeiros clássicos da astrologia.

Alan Leo, por exemplo, obviamente leu alguns dos clássicos, mas as pessoas que consideram Leo um “clássico”, nao leram nenhum dos trabalhos antigos de astrologia.

Às exceçoes geralmente sao pessoas que leram Ptolomeu (que está de graça na internet) e erroneamente acham que Ptolomeu é um representante da astrologia tradicional (ele nao é). Ou entao algumas pessoas que deram uma leitura superficial em Morin, e, erroneamente, acham que ele é a última bolacha do pacote e que inventou tudo o que diz. Nao, nao inventou.

Na verdade, um dos trabalhos clássicos mais divulgados hoje em dia, A Astrologia CRista, de William Lilly, só voltou a ser republicado nos estados unidos nos anos 80. Antes disso, era item de colecionador. Nessa mesma época, surgiu o projeto Hindsight que começou a traduzir trabalhos originais. Hoje em dia, graças aos tres Roberts, Schmidt, Hand e Zoller, a astrologia tradicional fez um grande resurgimento, para o desgosto do povo que acha que a casa 12 é a da espiritualidade e tudo na sua carta pode ser resolvido olhando-se a Quiron.

No entanto, a traduçao de uma série de importantes trabalhos gregos tem causado um efeito colateral, o exagero. Acho que é normal, cada movimento vai até sua conclusao lógica, e depois um pouco além dela, até que o exagero começa a reverter. Mas acredito que seja importante ressaltar, para que a gente nao caia nessas armadilhas.

A Palavra sagrada é a que temos

Sendo um dos trabalhos mais antigos em astrologia, as pessoas tem a tentação de ver como palavra sagrada. Se algo veio depois, com certeza foi erro de tradução.

Essa é uma conclusão um pouco precipitada demais. O argumento geralmente dado é do tipo “os árabes não tinham o livro 5 de Valens” ou algo parecido. Bem, podiam não ter, mas não temos a menor idéia de que outros trabalhos escritos eles tinham que não temos hoje em dia, ou que tipo de conhecimento foi passado oralmente, de professor a estudante, e nunca chegou a via escrita.

Por exemplo, Ptolomeu não é citado por ninguém, e não cita a ninguém. Se só tivéssemos a Valens, nunca saberíamos que Ptolomeu existiu, e vice-versa.

A proposta de que temos o conjunto central do pensamento grego, pode até ser verdadeira, mas me parece pretensiosa demais para ser confiada.

Tudo o que veio depois dos gregos é de origem grega

Falso, mas já vi esse tipo de raciocínio várias vezes. Por exemplo, vi a seguinte discussão num fórum, mantida por dois helenistas modernos…

A firdaria é uma técnica que divide a vida da pessoa em fases, regidas pelos planetas, e por sub-fases. Para encontrar a sub-fase, basta dividir o período por 7 partes iguais. A discussão é que, se nos basearmos nas técnicas gregas, isso obviamente está errado, já que os gregos sempre dividiam as fases em partes desiguais.

Só tem um probleminha nesse raciocínio… a firdaria vem da astrologia persa, e não tem nenhuma indicação que tenha vindo da astrologia grega. Por que diabos usaríamos um princípio grego? Ainda mais para chegar à conclusão de que o método está “errado”?

O método de divisão da vida em fases da astrologia hindu é chamada de Dasas. As dadas se baseiam nas nakshatras que não tem nenhum equivalente na astrologia grega. Embora o “espírito” das Dasas se encontre na astrologia grega, é muito diferente dizer que o método está “errado” porque não concorda com o que achamos em algum livro grego.

Tudo o que veio antes dos gregos também é de origem grega

Parece absurdo, mas recentemente numa discussão, um conhecido helenistico declarou que as exaltações, que pelo que se sabe são de origem babilônica, são na verdade gregas, “porque se encaixam demasiado bem no sistema grego para ser coincidência”.

Por exemplo, as exaltações combinam bem com o esquema grego conhecido como “Thema Mundi”.

É claro que seria muito mais lógico dizer que os gregos criaram o sistema do thema mundi para adaptar o sistema babilônico, mas às vezes é mais fácil adaptar a história…

“Isso é grego para mim”

Para entender astrologia grega é preciso falar grego?

Cada vez mais os helenísticos estão caindo numa armadilha perigosa… cada palavra tem que ser exatamente igual ao original em grego, ou então ela “perde o sentido”. E dá-lhe zoidia, moiria, peripetese, oikodespotes, heimarmene, tuche… E ai de quem confundir o destino heirmarmene do destino moiria!

É claro que eventualmente isso vira apenas um código para saber quem é membro do clube. Já existe um conjunto de palavras na astrologia, e elas não vão mudar. Se a palavra atual “signo” nao representa mais o que os gregos queriam, bem, azar, mas a palavra astrológica continua “signo”. Uma explicação do contexto original valeria um ótimo adendo, ou uma nota de rodapé, agora querer mudar a palavra é obviamente uma leviandade.

Principalmente quando, apesar da curiosidade histórica, a mudança de nome nao afeta nosso conhecimento astrológico. Ele nao nos leva a diferentes conceitos ou práticas, ou seja, nao melhora nosso entendimento. Mudar de “Lua” para “Selene”, apenas tem sentido de dizer que somos do grupo de iniciados. Pior do que isso, induz ao erro de pensar que os planetas estão ligados de alguma forma a mitologia dos deuses gregos e romanos!

Uma simples frase como “os senhores da triplicidade do signo de Aquário são Saturno, mercúrio e Júpiter, que devem estar em signos cadentes” pode tornar-se algo abominável como “os senhores dos ventos da Imagem do Derramador das águas são Cronos, Hermes e Zeus, que devem estar em signos que não estejam se afastando do horoskopos.”

E, novamente, você não aprendeu nenhuma astrologia com todo esse novo “vocabulário”. Só demora a leitura e cria desnecessário tecnicismo.

Mas, novamente, tem gente que adora.

Signos Inteiros

Eu adoro signos inteiros e uso eles faz vários anos, mas novamente surgiram exageros.

A primeira tentação, é óbvio, é de falar que os sistemas de casas por divisão (o que estamos acostumados, como Placidus, regiomontanus, alchabitius) estão errados. Nao, não estão. Funcionam, e a maioria das interpretações baseadas em casas (que vemos em autores posteriores, como Bonatti, Morin, Lilly) só funcionam usando sistemas de divisão.

Você pode notar que apesar dos sistemas de signos inteiros usar os significado das casas, eles raramente mencionam o planeta como regente, preferindo se concentrar nos seus significados naturais.

Agora, também tem o povo por exemplo que decidiu, por puro gosto, que o correto era usar astrologia horária com signos inteiros! Isso é taaaao errado em pelo menos tres níveis!

1 – A horária NAO foi inventada pelos gregos, e portanto não tem nenhum motivo para se usar signos inteiros. Foi inventada muito tempo depois.

2 – A horária foi inventada por astrólogos que usavam casas sim, e usavam um sistema mixto, misturando os dois sistemas. Mas, no caso de Mashalah, apesar dele não mencionar as cúspides das casas, sabemos por outros trabalhos que ele usava alchabitius. Nas horárias sobre a casa 19 ele usa o MC, nunca usa o décimo signo.

3 – a horária é o nosso sistema menos “idealista” e mais “pés-no-chao”. A materialidade cria certas características das horárias: por exemplo um planeta numa casa é muito menos importante que o regente dessa casa, procedimento inverso ao da astrologia natal. Do mesmo jeito, as pequenas diferenças da cúspide das casas são pequenas em natal, mas essenciais em horária.

Sect

Sect ou séquito (palavra tentativa) é o conceito de que há duas “facções” planetárias… a solar e a lunar. O sect solar consiste do sol, júpiter e saturno. O lunar é formado pela lua, venus e marte. Mercúrio não pertence a nenhum lado, e geralmente vai variando de posição de acordo com a carta. É um conceito muito importante e tenho utilizado por vários anos.

A primeira vez que eu percebi que o conceito estava ficando “fora de controle”, ou seja, sendo exagerado e deturpado, foi quando uma conhecida helenistica respondeu que achava que preferia muito mais um marte em câncer (marte está em queda em câncer) do que um marte durante o dia (marte, para uma carta diurna, é considerado como sendo mais maléfico porque está contrário ao seu sect, que é noturno).

Ora, vamos ver. Marte está diurno metade do dia. Metade das pessoas têm um marte diurno, porque nasceram durante o dia.

Marte demora, em média, dois anos e meio para dar a volta ao redor do zodíaco. Entao, na média, esperamos que fique uns 2 meses em câncer, ou seja, 1/12 das cartas, terão marte em câncer.

Só com isso já se vê que há algum problema nessa lógica! Que o sect é importante, não há dúvida, mas como ele repentinamente foi eleito como o mais importante fator para determinar a maleficidade de um planeta? Quer dizer que você prefere ter um marte em câncer na 8, durante a noite, que um marte em áries na 11 durante o dia? Bem, bom pra você.

Isso leva a outros exageros na parte prática. Veja uma eletiva por exemplo. Todos os helenisticos que já vi fazendo eletivas, sempre tem marte em casa cadente! Como quase tudo que se faz durante a vida tem que ser durante o dia, marte sempre será o grande inimigo porque está fora de sect! Entao a solução é sempre colocar ele em casa cadentes!

O problema com eletiva, é que se você “ajusta” uma coisa, você perde outra. Se você decide, a priori, que marte tem que estar cadente, dai você vê algumas dessas eletivas, que o quadro geral parece péssimo, mas o autor fica contente porque marte estava cadente….

Por mais que seja importante o conceito de sect, ele tem que ser temperado por outros fatores na carta. As metáforas que foram apresentadas até agora, como por exemplo a dos “partidos políticos” são limitadas, já que uma carta astral se comporta de maneira bem diferente do sistema partidário norte-americano.

→ 16 ComentáriosCategorias: Filosofia e Crítica · astrology
Etiquetado: , , , , ,

Emergência

10 Junho, 2009 · 1 Comentário

divination

Como dizia na semana passada, o símbolo responde a convenções pessoais, mas os significados atribuídos a ele não podem ser contrários ao significado maior e mais profundo, que foi atribuído histórica e culturalmente ao longo do tempo.

Mas não são todos os significados atribuídos ao símbolo, em última análise, também arbitrários? Por exemplo atribuir vermelho a marte, é uma característica universal do símbolo, ou é cultural e limitada no tempo e espaço?

É verdade que  que os significados atribuidos a cada símbolo sao sim, arbitrários, culturais e temporais. Se a cor vermelha no ocidente foi associada a marte, ao sangue, à paixao, à guerra, ela também foi associado à Júpiter e à Realeza (vermelho era o pigmento mais difícil de se conseguir, e basicamente só estava disponível para os reis e os muito ricos).

Como o mago Jason Miller diz, para um mago tibetano o vermelho estaria associado com magia de influência e encantamento, para um Haitiano a nação Loa, para um feiticeiro vodu seria magia sexual, etc. Atribuições de cores, direções, certos símbolos, podem ser considerados como “âncoras” que ligam o mago ao seu sistema e tradição de magia.

No entanto, Jason Miller também lembra que essas âncoras tem sim poder e uma existência real dentro da esfera do mago. Ele conta a experiência de um conhecido, que usava frequentemente o ritual da escola Golden Dawn, de invocaçao das energias planetárias de Júpiter, o ritual do hexagrama. Só que o sujeito estava ficando cada vez mais deprimido e introvertido, e isso porque o fulano estava fazendo o ritual errado, invocando o hexagrama de saturno e nao o de júpiter.

Ora, considerando que o ritual é relativamente novo e arbitrário, e que a única diferença entre o ritual de júpiter e de saturno é a maneira como se traça um hexagrama no ar, o resultado é bem importante. Como eu disse antes, se convenções pessoais funcionassem tao bem, ninguém errava, e todo iniciante bobo seria mestre. Mas a experiência com astrologia, tarot e mesmo magia mostra que não é assim.

O que é a emergência?

Para entender esses processos, acho importante entender o conceito de  emergência. Vamos analisar um sistema de signos que não é nada místico: a matemática.

Responda primeiro à seguinte pergunta: a matemática é “descoberta” ou “inventada”?

A resposta é que é um pouco das duas. A matemática é composta por conjunto de regras, feitas de maneira razoavelmente arbitrária, criadas por uma matemático em algum momento. Por exemplo regras de transformaçao de simetria criam a teoria dos grupos.  Basicamente se cria um conjunto de signos, e relaçoes entre signos, e operações sobre esses signos.

Por exemplo, você pode criar coisas que são aparentemente desprovidas de qualquer sentido, como o número imaginário, i, que é a raiz quadrada de -1, que não tem solução nos números reais. A partir do momento que você cria um novo conjunto de números, chamados complexos, dos quais os números reais sao apenas um subconjunto, os matemáticos começam a descobrir relações a partir desses números. Note que não há motivo para que isso resulte em nada útil, mas acaba sendo. Nao há motivo para que esses números imaginários tenham qualquer aplicaçao no mundo real, mas eles tem.

A partir de convençoes e relaçoes definidas mais ou menos arbitrariamente, uma série de leis e relaçoes podem surgir espontaneamente, na forma de padroes e leis, e essas relaçoes nao sao criadas pelo matemático… é muito mais exato dizer que elas sao descobertas.

Esse surgimento espontâneo de relações, padrões ou ordem a partir de um conjunto pequeno de relações simples é chamado de emergência. Do mesmo jeito que a emergência existe em sistemas orgânicos complexos, também existe na matemática e nos sistemas divinatórios.

Note o padrao que é necessário para termos o que chamo de emergência:

1- um sistema feito de partes simples e de suas relações entre as partes, que são, até certo ponto, arbitrárias, apesar de no sistema divinatório ele está sempre vinculado a uma filosofia mística.

2 – esse sistema, ao ser trabalhado na prática, e não apenas no blá-bla-bla, tem certas propriedades autônomas que são “descobertas” e não criadas. Por exemplo, no tarot, a carta da Torre representa queda e fracasso, mas depois de algumas experiências você descobre que, em situações rigidas e sem esperança, o surgimento da torre na primeira posição significa o rompimento do ciclo de fracasso.

3 – veja que essa propriedade da Torre é descoberta. Ela não é algo que você viu no livro. Mas também não é algo que você colocou como uma mera convenção pessoal.

Agora entenda melhor o meu postulado do artigo da semana passada: uma convenção pessoal nao pode, por natureza, quebrar as convenções mais “universais”, seja do tarot, da astrologia, do i ching, porque a própria maneira de ler o sistema divinatório depende de regras que emergem naturalmente, mas que estão ligadas a essas convenções arbitrárias. Mudou uma parte, mudou todas as partes.

Por isso que as pessoas que mudam uma parte de um sistema, por exemplo as que acham que a casa 8 na astrologia é boa, ou que ignora as casas negativas do feng shui, ou que lê o I Ching como se fosse um livro de conselhos e poesia, está mudando o sistema integralmente. Você não pode usar plutão como “regente” de escorpião, e depois querer usar as regras normais da astrologia tradicional, por exemplo. Você não pode ficar usando bobagens como o “canto do amor” e depois dizer que está usando feng shui. Você já está usando uma versão mutilada e bastarda.

“Esse processo de emanação é inerente só a criação de um oraculo proprio, ou todos os oraculos devem ser “imanados”, por exemplo, o mal funcionamento de um Tarot de Marselha pode ser devido a falta de emanação?”

Todos os oráculos partem, como dito acima, de um conjunto de regras conectam o funcionamento do oráculo ao universo espiritual. O I ching por exemplo usa a teoria dos cinco elementos. A astrologia usa a heptarquia, os quatro elementos, etc. Quando o conjunto de regras representa adequadamente o universo espiritual, temos que entra a parte divina da “divinação”. Os padrões que surgem naturalmente no oráculo, e que chamamos de “aprender”, ou “ganhar experiência prática” com o oráculo, surgem desse processo que emana do espiritual ao físico.

Na próxima semana eu exemplificarei toda a minha ladainha com a criaçao de um oráculo novo, e a mostra de como as regras, por mais arbitrárias que possam parecer para o pensamento moderno, seguem uma ordem, e como o processo de emergência é natural para qualquer sistema divinatório.

→ 1 ComentárioCategorias: Filosofia e Crítica · Iniciantes e Tutoriais · astrology
Etiquetado: , , , , ,